Crise no Paraguai: Santiago Peña é preso em Assunção horas após sofrer impeachment no Senado.

Presidente destituído cumprirá prisão domiciliar sob escolta policial; Ministério Público investiga tráfico de influência e liquidação de banco com depósitos públicos.

Rafael Monteiro, correspondente especial, direto de Assunção, Paraguai.
Data de Publicação: sábado, 07 de novembro de 2026, às 19:15.
Coluna Olhar Mundial >>> Crise no Paraguai e Prisão do Ex-Presidente Santiago Peña.
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O cenário político da América do Sul foi sacudido por uma reviravolta histórica na noite desta sexta-feira (6). O presidente destituído do Paraguai, Santiago Peña, foi preso por agentes da Polícia Nacional em sua residência em Assunção. A detenção ocorreu poucas horas após o Senado paraguaio aprovar o seu impeachment por esmagadora maioria, encerrando de forma dramática o mandato do economista que governava o país desde 2023.

A determinação de prisão foi emitida pela Unidade Especializada em Crimes Econômicos e Anticorrupção, juntamente com a Unidade Especializada em Crimes Informáticos do Ministério Público paraguaio. A medida também ordenou a prisão do ex-presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Dagoberto Carvallo Spalding.

Prisão domiciliar e monitoramento policial

De acordo com as ordens proferidas pelas autoridades judiciais, Santiago Peña cumprirá prisão domiciliar em sua residência até que seja formalmente colocado à disposição do Ministério Público. As autoridades informaram que o ex-mandatário não fará uso de tornozeleira eletrônica neste primeiro momento, ficando o monitoramento sob a responsabilidade de agentes ostensivos da Polícia Nacional.

Promotores que discursaram em frente à residência de Peña declararam que as acusações formais continuam em fase de delimitação técnica, mas devem incluir crimes como tráfico de influência e improbidade administrativa. Peña foi intimado a prestar depoimento na sede da promotoria na manhã deste sábado (7).

Em relação a Carlos Spalding, a Justiça determinou que o ex-presidente do Banco Central permaneça custodiado em uma unidade designada pelo Comando da Polícia Nacional.

"As pessoas detidas deverão ser colocadas à disposição da autoridade competente dentro do prazo legal, com observância estrita de seus direitos e garantias constitucionais", destacaram os promotores no documento oficial de detenção.

A votação fulminante do impeachment no Congresso

A prisão de Peña coroou um processo de impeachment avassalador que tramitou em velocidade recorde no Congresso Nacional paraguaio. Na quinta-feira (6), a Câmara dos Deputados já havia aprovado o início do julgamento político do chefe de Estado.

Na noite de sexta-feira, o Senado selou o destino do mandatário: por 44 votos a favor e apenas uma abstenção, o plenário aprovou a destituição imediata de Santiago Peña do cargo de Presidente da República.

Entenda a origem da crise: O colapso do Banco Ueno

O estopim para a queda de Peña ocorreu na terça-feira (3), quando o Banco Ueno — instituição financeira pertencente ao Grupo Vázquez — teve suas operações encerradas após o Banco Central do Paraguai decretar o início do seu processo de liquidação. A medida foi tomada ao constatar um déficit crítico nos índices de solvência do banco, provocado pela concessão de empréstimos irregulares a empresas vinculadas ao próprio grupo.

Santiago Peña foi acionista do grupo proprietário do banco até março do ano passado. O Ueno contava com aproximadamente 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões (equivalente a R$ 4,6 bilhões) em depósitos públicos, incluindo verbas estratégicas do Instituto de Previdência Social do Paraguai.

A oposição acusou o presidente de conflito de interesses, manipulação regulatória, desvio de recursos previdenciários e encobrimento institucional por parte do Banco Central. Durante a sessão que aprovou a acusação na Câmara, a deputada oposicionista Rocío Vallejo proferiu um duro discurso contra o mandatário:

"Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou", declarou a parlamentar.

Antes de ter sua prisão decretada, Peña manifestou-se por meio de sua conta na rede social X (antigo Twitter), afirmando que os responsáveis pelas irregularidades responderiam perante a Justiça "sem exceções", pouco antes de promulgar uma lei de emergência voltada a acelerar o ressarcimento dos poupadores do banco.

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