Fim da overdose bíblica? 'Bela, a Feia', 'Amor & Intrigas', 'Escrava Mãe' e 'Vidas Opostas' disputam a vaga das tardes da RECORD
Cansaço do público com reprises religiosas acende sinal de alerta na alta cúpula da emissora; bastidores fervilham com a busca por folhetins urbanos de sucesso para blindar a audiência vespertina, mas decisão final esbarra no centralismo de Cristiane Cardoso.
Carlos André Mamedes, CEO e editor-chefe, direto da Base Oficial HDN, na Ilha do Governador, RJ
Data de Publicação: segunda-feira, 19 de outubro de 2026, às 16:25.
Coluna Mundo RECORD >>> Clássicos históricos disputam vaga no horário vespertino.
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| RECORD precisa tomar uma decisão para recuperar o público que perdeu nos últimos 10 anos. |
A teledramaturgia vespertina da RECORD pode estar prestes a passar por uma de suas maiores e mais estratégicas guinadas dos últimos anos. Em meio a sinais claros de desgaste do modelo centrado estritamente em narrativas de época e folhetins de temática religiosa, a alta direção da emissora paulista estuda promover uma profunda reformulação em sua grade de programação das tardes.
Segundo fontes exclusivas ouvidas pela reportagem e ligadas aos bastidores do complexo de estúdios do canal, quatro grandes sucessos da história recente da teledramaturgia da casa ganharam força total nos corredores para assumir a faixa vespertina de reprises: Bela, a Feia (2009), Amor & Intrigas (2007), Escrava Mãe (2016) e o consagrado policial urbano Vidas Opostas (2006).
A movimentação nos bastidores reflete um diagnóstico direto feito por executivos de programação: as constantes reexibições da franquia bíblica e de títulos épicos estão perdendo fôlego de forma acelerada junto ao público. O temor da diretoria é que a insistência em um único nicho temático desencadeie uma crise de audiência de grandes proporções no período vespertino — horário historicamente estratégico para a entrega de público aos jornais locais e aos programas jornalísticos do fim de tarde.
A busca pelo respiro contemporâneo: Por que a mudança se tornou urgente?
Nos últimos anos, a RECORD consolidou uma grade fortemente apoiada na estética religiosa. No entanto, os números recentes de consolidado no Mercado Nacional (PNT) e na Grande São Paulo têm acendido o sinal vermelho. A repetição exaustiva dos mesmos cenários, dilemas morais e tramas épicas gerou o que analistas internos apelidaram de "overdose bíblica", afastando o telespectador que busca o dinamismo, o humor e o realismo das tramas contemporâneas e urbanas.
A avaliação da equipe de programação é que a escalação de uma novela moderna ou de um épico de época tradicional, focado no melodrama clássico, pode resgatar a competitividade e diferenciar a emissora da concorrência direta no horário vespertino.
Entre as opções avaliadas, Bela, a Feia (2009) surge como o plano de emergência perfeito. Adaptada por Gisele Joras a partir do texto original de Fernando Gaitán, a comédia romântica protagonizada por Giselle Itié e Bruno Ferrari provou ter apelo avassalador com o público infantil e feminino, garantindo liderança em diversos momentos graças ao seu tom leve e solar.
Já Amor & Intrigas (2007), escrita por Gisele Joras, traz a força do folhetim clássico a partir da rivalidade entre as irmãs Alice (Vanessa Gerbelli) e a vilã Valquíria (Renata Dominguez), apostando em um ritmo ágil e ganchos poderosos ambientados no Rio de Janeiro.
Por sua vez, Escrava Mãe (2016), assinada por Gustavo Reiz, serve como um elo de transição estética elegante. Embora seja uma novela de época, a produção foca no melodrama puro e no romance histórico entre Juliana (Gabriela Moreyra) e Miguel (Pedro Carvalho), afastando-se do texto abertamente religioso.
Por fim, Vidas Opostas (2006), obra-prima de Marcílio Moraes estrelada por Maytê Piragibe, Léo Rosa e Marcelo Serrado, é vista como uma aposta de alto impacto ao retratar o contraste entre a zona sul carioca e a favela do Torto, resgatando o realismo policial que já derrotou a concorrência no horário nobre.
O gargalo nos bastidores: A influência e a palavra final de Cristiane Cardoso
Apesar da forte pressão de setores do departamento comercial e da própria equipe técnica da programação para que uma dessas quatro produções seja anunciada nos próximos dias, o martelo definitivo ainda não foi batido. E o motivo atende por um nome que domina os bastidores do canal: Cristiane Cardoso.
A filha do bispo Edir Macedo e atual diretora do departamento de dramaturgia da emissora concentra praticamente todas as decisões artísticas e operacionais do setor. Segundo fontes de bastidores ouvidas pela reportagem sob condição de anonimato, o clima nos corredores da alta cúpula é de forte tensão e insatisfação velada diante da postura da executiva.
"O sentimento geral entre diretores e programadores é de frustração. Há uma leitura clara e respaldada por pesquisas de que o público cansou do formato religioso contínuo nas tardes. No entanto, qualquer mudança que passe por novelas contemporâneas esbarra no filtro pessoal da Cristiane. Ela se comporta e atua como se fosse a única dona da RECORD, mesmo com o pai vivo. Nada anda se não passar pelo crivo ideológico e pessoal dela", revelou uma fonte ligada ao setor de programação da emissora.
A resistência de Cristiane Cardoso em liberar tramas contemporâneas e urbanas se deve ao rigor moralista imposto por sua gestão, que costuma vetar ou reeditar ostensivamente produções antigas que contenham linguagem mais realista, cenas de violência urbana, sensualidade ou conflitos éticos humanos que não se adequem ao perfil doutrinário da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Opinião e Análise Editorial: 'A RECORD precisa de profissionais de televisão e de responsabilidade com a concessão pública'
A crise institucional e criativa que ameaça a grade vespertina da RECORD foi analisada com contundência por Carlos André Mamedes, CEO do Portal Hora da Notícia e presidente do Grupo Super Nova Comunicação. Para o jornalista e executivo de mídia, o impasse vivido pela emissora paulista evidencia um problema estrutural que ultrapassa a escolha de uma simples reprise de novela.
"A RECORD precisa urgentemente de pessoas na sua gestão que saibam, verdadeiramente, fazer televisão. Uma grande rede de comunicação não pode ser gerida como extensão de um templo ou sob os caprichos ideológicos de uma diretoria que ignora as regras básicas do mercado e da linguagem audiovisual. É indispensável saber separar o dogmatismo religioso do ambiente corporativo e profissional.
É preciso lembrar à alta cúpula da emissora que uma rede de televisão aberta opera sob uma concessão pública governamental. Esse direito de transmissão pertence ao povo brasileiro e exige responsabilidade social, pluralidade de conteúdos e respeito à diversidade do público telespectador. Insistir no sufocamento da teledramaturgia em nome de um filtro doutrinário é um desrespeito ao telespectador, ao mercado publicitário e à própria história da televisão brasileira."
— Carlos André Mamedes, CEO do Portal Hora da Notícia e Grupo Super Nova Comunicação.
O impasse comercial e o futuro da faixa vespertina
Enquanto a decisão final permanece travada pela diretoria de dramaturgia, o setor comercial da RECORD corre contra o tempo. Marcas e anunciantes de grande porte têm sinalizado preferência por patrocinar folhetins urbanos e comédias leves — atrações que dialogam melhor com o perfil de consumo do público que está em casa no período da tarde —, em detrimento de produções bíblicas já exaustivamente reexibidas.
Se a lógica da programação, a pressão do mercado e a cobrança por uma gestão profissional prevalecerem, a definição do título substituto para as tardes da RECORD deverá ser oficializada nas próximas semanas. A grande questão que paira nos corredores da Barra Funda é se a razão técnica e a responsabilidade com a concessão pública conseguirão dobrar o centralismo de Cristiane Cardoso para salvar o canal de uma derrocada vespertina.

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