Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas, aos 96 anos

O "professor da democracia" partiu aos 96 anos, deixando um legado que parece mais urgente do que nunca em um mundo que desaprendeu a ouvir.

Carlos André | CEO e editor-chefe, direto da Base HDN, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.
Publicação: 14/03/2026 às 21:00
Morte de Jürgen Habermas.
Filósofo alemão deixa um grande legado e será sempre lembrado por suas contribuições para a comunicação - Divulgação

Pode puxar a cadeira, porque hoje o café tem um gosto de fim de era. Se você acompanha minimamente como o mundo pensa, o nome Jürgen Habermas já deve ter cruzado seu caminho. Pois é, o mestre da "ação comunicativa" nos deixou neste sábado (14), lá em Starnberg. Aos 96 anos, ele fechou o livro de uma vida que se confunde com a própria reconstrução da alma alemã depois do horror nazista.

Sabe aquele amigo que sempre tenta colocar ordem na discussão quando todo mundo começa a gritar? Habermas era esse cara, só que em escala global.

Do trauma ao diálogo

A história dele é fascinante e muito humana. Ele nasceu com uma fenda palatina, passou por cirurgias tensas quando criança e tinha uma dificuldade na fala que muita gente diz ter sido o "estalo" para ele estudar... a comunicação! Imagine só: o cara que tinha dificuldade de ser entendido virou o maior filósofo da linguagem do século.

Ele viveu o nazismo na pele, foi da Juventude Hitlerista (como quase todo garoto da época) e viu o pai simpatizar com o regime. Quando a guerra acabou, ele não fingiu que nada aconteceu. Pelo contrário, ele passou a vida martelando que a Alemanha precisava encarar a culpa de frente. Para ele, a democracia não era só votar, era conversar sem máscaras.

Onde o bicho pegou (e ainda pega)

Nos últimos anos, Habermas estava meio "pistola", e com razão. Ele olhava para a política atual e via dois fantasmas voltando:

  • O Nacionalismo: Ele via com muita tristeza o crescimento da ultradireita (AfD) na Alemanha.

  • O Militarismo: Recentemente, ele causou polêmica ao pedir cautela no envio de armas para a Ucrânia. Ele tinha um medo genuíno de que a Europa esquecesse as lições da Segunda Guerra e voltasse a achar que bombas resolvem tudo.

"A religião ainda é indispensável na vida comum para normalizar nossa interação com o extraordinário", dizia ele, que mesmo sendo um homem da razão, entendeu no fim da vida que a fé tem seu lugar na mesa.

Por que isso importa para nós em 2026?

Em um tempo de bolhas de algoritmos e cancelamentos rápidos, Habermas faz uma falta danada. Ele acreditava na "força do melhor argumento". Ou seja: senta aqui, me convence com lógica e respeito, e talvez a gente chegue em algum lugar juntos.

Seu biógrafo, Philipp Felsch, contou que em suas últimas visitas encontrou um Habermas sombrio, sentindo que o mundo estava jogando fora décadas de aprendizado diplomático. É um alerta e tanto para a gente, né?

A Suhrkamp, editora dele, confirmou que ele se foi calmamente. Ele deixa dois filhos e um vazio enorme na estante de quem ainda acredita que a palavra é a nossa melhor arma.

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