Entre a apatia e a hostilidade, MGK tropeça no próprio ego em estreia morna no Rock in Rio
Escalado em um Palco Mundo dominado pelo peso de Avenged Sevenfold e Sepultura, cantor americano tenta equilibrar discursos tristes, estética boyband e pop-punk formulaico, mas expõe descompasso com a plateia do festival.
Carlos André | CEO e editor-chefe | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Publicação: Dia 05 de setembro de 2026 às 21:50.
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| MGK se apresenta no Rock in Rio 2026 — Reprodução/ Globoplay |
A travessia de Colson Baker pela cena musical sempre foi pautada pela provocação e pela reinvenção rápida. Contudo, ao pisar no Palco Mundo na noite deste sábado (5), o artista de 36 anos — que abandonou o pseudônimo "Machine Gun Kelly" para adotar a alcunha mais pacífica MGK — encontrou seu limite estratégico. Em uma noite explicitamente moldada para as vertentes mais pesadas do metal e do hard rock, o pop-punk emotivo e rádio-orientado do cantor bateu de frente com uma parede de indiferença e vaias pontuais.
O descompasso ficou evidente logo nos primeiros minutos. Interrompendo a apresentação logo no início para conter focos de hostilidade vindos de alas do público vestidas com camisas do Avenged Sevenfold, Baker tentou desarmar a tensão apelando ao sentimentalismo. Visivelmente nervoso, declarou ser apenas "um cara de Ohio vivendo seu sonho" e soltou a máxima de que "existem dois tipos de música: boa e ruim" — sem detalhar em qual prateleira colocava a própria produção.
A abertura com FIX UR FACE, faixa lançada em 2025 que tenta flertar com o som do Limp Bizkit do fim dos anos 1990, escancarou a falta de punch para o momento. Entre discursos melancólicos sobre o envelhecimento e a finitude da carreira, a performance oscilou entre a postura caricata de boyband — visível durante as coreografias no solo de Vampire Diaries — e adereços de cena dispensáveis, como o microfone acoplado a um pedestal em formato de cigarro.
Incompatibilidade de curadoria e raros respiros
O erro da noite não esteve apenas na execução, mas no próprio encaixe do artista dentro do line-up. Enquanto a Cidade do Rock buscava a catarse do som pesado, MGK ofereceu um compilado de lamúrias pop e nostalgia reciclada.
- Aposta errada no repertório: Curiosamente, o cantor deixou de fora Bad Things, maior sucesso comercial de sua fase inicial (gravado com Camila Cabello e construído sobre os samplers de Out of My Head, da banda Fastball). A escolha reduziu ainda mais o alcance de sua apresentação diante de um público neutro.
- Momentos de lucidez: Poucas faixas conseguiram furar a bolha do desinteresse. A performance de my ex's best friend, que encerrou o set de forma sóbria, relembrou a capacidade de Baker de construir refrãos chiclete. No entanto, a entrega veio tarde demais para reverter o esfriamento da pista.
- O peso do contraste: Em um dia em que o público buscava a fúria rítmica e a precisão técnica, a sonoridade em desaceleração de MGK soou genérica. O flerte com o emo, que funcionaria em um contexto de festival mais diversificado, revelou-se frágil no Palco Mundo.
Balanço do Show
Abaixo, a síntese do desempenho das etapas da apresentação de MGK na Cidade do Rock:
| Fase da Performance | Sonoridade Predominante | Reação Dominante da Plateia |
| Início (FIX UR FACE) | Pop-rock de rádio anos 90 / Flirta com Nu-Metal | Tensão, vaias de fãs de metal e interrupção |
| Miolo do Set (Vampire Diaries) | Pop-punk emotivo / Coreografias no estilo boyband | Apatia generalizada e dispersão do público |
| Encerramento (My ex's best friend) | Pop-punk comercial / Melodia sóbria | Absorção morna e aplausos burocráticos |
A estreia de MGK no Rio de Janeiro deixou a nítida impressão de que a busca por uma nova identidade artística ainda carece de substância no palco. Ao trocar a urgência do rap por um pop-punk burocrático e discursos defensivos, o cantor não apenas perdeu a chance de conquistar os céticos, como confirmou que nem toda transição de gênero se sustenta na grandiosidade de uma arena.
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