Entre o fofo e o horripilante, Poppy encarna diva do metal, instiga "remada viking" na lama e converte multidão no Palco Sunset

Misturando estética kawaii, vocais guturais e pirotecnia no início da noite deste sábado (5), cantora norte-americana aposta em contrastes sonoros radicais; nossa reportagem ouviu dez espectadores na pista, incluindo estrangeiros e menores de idade.

Henry Freitas | Repórter Cultural | direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Publicação: Dia 06 de Setembro de 2026 às 02:00.
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Poppy se apresentou no Rock in Rio 2026 neste sábado (05) - Reprodução/ Globoplay

À primeira vista, Moriah Rose Pereira — mundialmente reconhecida pelo projeto Poppy — parecia uma diva pop tradicional ao pisar no Palco Sunset no início da noite deste sábado (5). Envergando um figurino temático em tons de verde e azul (que remetia sutilmente ao visual icônico usado por Lady Gaga em Copacabana), a artista de 31 anos surgiu entoando delicadamente os versos da faixa Have You Had Enough, ostentando longos cabelos pretos e segurando um pedestal reluzente. Para um espectador desavisado que chegasse naquele exato segundo à Cidade do Rock, a impressão era de que uma atração pop havia sido escalada por engano no dia dedicado ao rock pesado.

No entanto, a ilusão durou apenas até a primeira transição rítmica. À medida que o instrumental ganhava pressão, Poppy despiu-se da doçura inicial para encarnar uma autêntica diva do metal moderno. A cantora alternou com extrema facilidade entre o canto açucarado do universo kawaii e urros guturais avassaladores, respaldada por uma banda de apoio mascarada com feições bizarras que despejava solos acelerados e bases pesadas.

O grande trunfo de Poppy sempre foi a manipulação de contrastes. Antes de abraçar a indústria musical, a norte-americana ganhou notoriedade no YouTube no início dos anos 2010 ao interpretar uma bizarra boneca andróide em vídeos enigmáticos — uma persona fofa e aterrorizante na mesma medida. Em 2016, lançou-se na música como uma artista pop eletrônica, mas encontrou sua verdadeira identidade artística ao fundir o industrial, o nu-metal e o alt-pop, embora prefira definir seu trabalho apenas como eclético.

Na Cidade do Rock, essa dualidade inicialmente causou espanto, mas logo contagiou a plateia. As colunas de fogo e as explosões de fumaça cenográfica ajudaram a criar uma atmosfera de espetáculo teatral. Contudo, ao longo de uma hora de apresentação, a fórmula mostrou sinais de desgaste: a maioria das canções repetia a estrutura de começar em ritmo desacelerado até a bateria explodir em ritmos intensos, uma constante oscilação que acabou esfriando a energia da pista em determinados momentos.

Contida no microfone, a cantora falou o estritamente necessário. Não fez longos discursos e sequer mencionou que a celebrada faixa V.A.N. — um dos momentos de maior engajamento do público — era uma parceria com a banda Bad Omens. Apesar da frieza conversacional, o público encontrou formas inusitadas de se divertir. Além das tradicionais rodas de bate-cabeça e do acendimento de sinalizadores, um grupo de fãs sentou-se no chão enlameado pela chuva recente para simular uma "remada viking" — cena típica das arquibancadas de futebol da Noruega.

O show atingiu seu ápice nos minutos finais. Antes de encerrar com a explosiva New Way Out, Poppy pediu ao público "a maior rodinha de todas". A resposta foi imediata e eufórica, deixando a nítida sensação de que a recepção teria sido ainda mais calorosa caso a artista tivesse interagido mais com a plateia ao longo da performance.

Mosaico da Pista: A voz de 10 fãs sobre o fenômeno Poppy

Percorrendo os setores do Palco Sunset logo após o término do show, a reportagem do Portal Hora da Notícia ouviu dez espectadores de diferentes faixas etárias e nacionalidades para mapear o impacto da apresentação.

  • A visão dos fãs menores de idade: Acompanhada pela mãe, a estudante paulista Sofia Martins, de 15 anos, expressou fascínio pela estética da cantora. "A Poppy é a prova de que garotas podem ser fofas e extremamente pesadas ao mesmo tempo. Eu acompanho os vídeos dela desde nova e ver aquele gutural saindo de alguém tão delicada é inspirador", afirmou. Já o jovem Lucas Silveira, de 16 anos, que veio de Niterói, elogiou o instrumental: "O som da banda ao vivo é muito mais pesado do que no estúdio. A transição de voz dela é surreal, parece que tem duas pessoas cantando no mesmo microfone."

  • O olhar internacional: O turista norte-americano Ethan Wright, de 29 anos, vindo de Seattle, destacou a energia do público brasileiro. "Já vi a Poppy nos Estados Unidos, mas o que os brasileiros fizeram na lama hoje foi inacreditável. A ideia de fazer uma 'remada viking' durante um show de metal alternativo é a coisa mais divertida que já testemunhei em um festival", comemorou. A alemã Hanna Becker, de 24 anos, ressaltou a coragem artística do projeto: "Ela desafia os puristas do metal. Muita gente do heavy metal tradicional torce o nariz para o pop, mas a Poppy prova que a mistura funciona perfeitamente em grandes palcos."

  • A experiência dos fãs veteranos e da grade: O designer carioca Bruno Mendes, de 33 anos, pontuou a oscilação do ritmo do show. "Foi uma performance visualmente incrível, mas o setlist pecou um pouco por repetir a mesma dinâmica de calmaria e explosão em quase todas as músicas. Isso deu uma esfriada no meio do show, embora o final tenha sido apoteótico", avaliou. A estudante de artes Camila Torres, de 21 anos, que enfrentou a grade desde a abertura dos portões, celebrou o encerramento: "Quando ela pediu a roda gigante antes de New Way Out, a Cidade do Rock abaixo. Ela não precisa falar muito quando a entrega vocal é tão absurda."

  • Novos convertidos pela sonoridade: O engenheiro gaúcho Gabriel Santos, de 27 anos, admitiu que não conhecia o trabalho da artista em profundidade. "Eu vim para o Palco Sunset só para guardar lugar para as próximas atrações e fui completamente surpreendido. Achei que seria um pop bobinho, mas a mina canta um metal insano. Já mudei minha opinião e vou adicionar no Spotify", revelou. A fotógrafa Larissa Mello, de 25 anos, concorda: "O contraste de luzes e pirotecnia salvou os momentos em que a plateia deu uma dispersada. Ela tem uma presença cênica hipnotizante."

  • Percepção sobre a interação: Para o universitário mineiro Matheus Oliveira, de 20 anos, faltou um pouco mais de calor humano no microfone. "Ela poderia ter citado a parceria com o Bad Omens em V.A.N., o público teria ido à loucura. Ela é muito reservada, parece que continua interpretando a boneca sem emoções no palco." Por fim, a jovem Beatriz Lima, de 17 anos, resumiu a experiência no chão molhado: "Tomar chuva, ficar sujando a roupa na lama fazendo 'remada' e depois pular num moshpit ao som de New Way Out foi a melhor experiência desse segundo dia de festival."


Balanço do Show

Abaixo, a síntese do desempenho e da dinâmica do espetáculo no Palco Sunset:

Bloco da PerformanceEstética & SonoridadeAtitude no PalcoReação Dominante da Plateia
Abertura (Have You Had Enough)Visual Pop Kawaii / Vocal delicado que evolui para o Heavy MetalEntrada teatral, uso de figurino colorido e pedestal brilhanteCuriosidade, surpresa inicial e aceitação gradual
Desenvolvimento do SetNu-Metal / Industrial / AlternativoPouca conversa no microfone, foco na execução e pirotecniaOscilação de energia, moshpits e "remada viking" na lama
Encerramento (New Way Out)Metalcore Moderno / Guturais intensosPedido explícito pela "maior rodinha do show"Catarse coletiva, grande moshpit e aprovação geral

Longe de atingir a catarse histórica proporcionada pelo Sepultura no Palco Mundo, mas consideravelmente superior ao desempenho apático de mgk, Poppy cumpriu com competência seu papel na Cidade do Rock. A cantora não apenas garantiu seu espaço na programação como também expandiu sua base de admiradores no país, provando que a estranheza e o peso continuam sendo combustíveis poderosos para o Rock in Rio.

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