Entre o atraso, a vanguarda e o silêncio da pista: Avenged Sevenfold estranha "educação" do público carioca em retorno apático ao Palco Mundo.

Grupo norte-americano atrasa 30 minutos sem explicações, aposta em arriscada guinada progressiva com vocoder e registra recepção morna em sua segunda passagem como headliner do Rock in Rio; nossa reportagem ouviu fãs brasileiros e estrangeiros na saída da atração.

Daniel Tocatelli | Repórter Especial | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: Dia 06 de Setembro de 2026 às 11:00
Rock in Rio 2026 no Portal Hora da Notícia >>> Você no Maior Festival de Rock do Planeta.
Avenged Sevenfold durante show no Palco Mundo, no Rock in Rio 2026 - Divulgação/ Portal Hora da Notícia.

A expectativa que cercava o encerramento do Palco Mundo na madrugada deste domingo (6) carregava a responsabilidade de coroar o dia mais pesado e visceral da edição de 2026 do Rock in Rio. No entanto, o que se viu na arena da Barra da Tijuca foi um espetáculo marcado por ruídos de comunicação, oscilação de temperatura na pista e um visível descompasso entre as pretensões conceituais do Avenged Sevenfold e a disposição da plateia.

O primeiro sinal de atrito veio do relógio. Com um atraso de meia hora que não contou com qualquer justificativa nos telões do festival, o quinteto norte-americano subiu ao palco às 00h30. O longo período de espera sob a chuva fina que insistia em cair sobre a Cidade do Rock drenou parte da energia de um público que já acumulava mais de dez horas de maratona musical.

Quando M. Shadows (vocais), Synyster Gates (guitarra solo), Zacky Vengeance (guitarra ritmo), Johnny Christ (baixo) e Brooks Wackerman (bateria) finalmente atacaram os primeiros acordes, a recepção esteve longe da catarse registrada na estreia do grupo como headliner do festival, em 2024. A falta de fúria nos moshpits e a resposta contida da multidão fizeram o próprio vocalista interromper as falas entre as músicas para questionar a postura dos espectadores: “Vocês estão tão educados hoje. É a chuva?”, indagou Shadows, demonstrando perplexidade com o comportamento comedido do gramado.

A saturação de um reencontro e a barreira do som experimental

A morosidade do show pode ser explicada, em parte, pela frequência de encontros recentes entre a banda de Huntington Beach e o público sul-americano. Quando o Avenged Sevenfold encabeçou o line-up de 2024, o grupo encerrava um jejum de dez anos sem pisar em solo brasileiro, criando uma atmosfera de urgência e celebração épica. Contudo, esta apresentação de 2026 marcou a terceira vinda da banda ao país em um intervalo de apenas dois anos — a última ocorrera há poucos meses, em janeiro. A superexposição no mercado nacional cobrou seu preço na forma de um entusiasmo nitidamente diluído.

Outro fator determinante para o esfriamento do show esteve na construção do repertório. O Avenged Sevenfold atravessa uma fase de transição estética complexa, distanciando-se do heavy metal direto e melódico do início dos anos 2000 para se aprofundar em arranjos de metal progressivo, vanguardismo eletrônico, métricas tortas e o uso ostensivo de vocoder nos vocais.

Essa fratura sonora ficou clara na oscilação da plateia:

  • Momentos de ignição: O público respondeu com entusiasmo quando o grupo recorreu aos seus hinos consolidados. A abertura com Nightmare, a precisão técnica nos solos de Afterlife e, sobretudo, a inclusão da emocionante balada Seize the Day — ausente do setlist de 2024 — garantiram os raros picos de coro uníssono e braços erguidos na pista.

  • A barreira das novidades: A energia despencou drasticamente quando a banda executou composições de sua fase mais recente e experimental. Músicas como Nobody e Magic, repletas de sintetizadores, timbres robóticos e passagens instrumentais densas, foram recebidas com um silêncio contemplativo que beirou a apatia generalizada.

  • O contraste com o restante do dia: Vindo na sequência de apresentações incendiárias e politicamente carregadas como a do Black Pantera, a fúria do Sepultura e o espetáculo imersivo do Bring Me The Horizon, a performance do Avenged Sevenfold soou cerebral e burocrática, carecendo da urgência física que a noite pedia.

Vozes da Pista: A divisão de opiniões entre brasileiros e gringos

Nas saídas do Palco Mundo, a frustração com o atraso e a incompreensão em relação ao setlist dividiam opiniões entre os fãs veteranos, os admiradores das novas fases e os turistas que viajaram ao Rio de Janeiro.

Frenesi interrompido e decepção com a energia: O engenheiro carioca Bruno Vasconcellos, de 32 anos, que acompanhou a banda nos três shows anteriores no país, lamentou a falta de peso no encerramento. "O atraso de meia hora em um festival desse tamanho já quebra as pernas de todo mundo que passou o dia na chuva. Para piorar, eles colocaram músicas muito lentas e cheias de efeitos no meio do show. Parecia que a banda estava tocando para si mesma, sem se importar com a vibe da galera", criticou.

A visão dos entusiastas da fase progressiva: Por outro lado, a estudante de música paulista Larissa Torres, de 24 anos, defendeu a coragem do grupo. "O Avenged não é mais aquela banda de metalcore de 2005. Eles evoluíram para algo muito mais rico e complexo. Músicas como Nobody são obras-primas no estúdio. O problema é que o público de festival no Brasil só quer pular e cantar refrão chiclete. O M. Shadows percebeu que o pessoal não entendeu a proposta", avaliou.

O olhar do público internacional: O turista norte-americano Derek Miller, de 29 anos, vindo do Texas, demonstrou surpresa com a apatia da plateia brasileira, famosa mundialmente pela euforia. "Eu vim ao Rio porque todo mundo diz que os fãs brasileiros são os mais loucos do planeta. Mas o show de hoje parecia um concerto nos Estados Unidos: todo mundo parado, filmando com o celular e apenas 'sendo educado'. Acho que a banda errou ao não tocar mais clássicos do City of Evil, mas o público também deixou a desejar", comentou.

Análise do desgaste de imagem: Já o fã chileno Gonzalo Morales, de 35 anos, ressaltou o erro do excesso de turnês na região. "Vir três vezes ao Brasil em dois anos tira aquele caráter de evento imperdível. Fica comum. O Avenged precisa dar um tempo da América Latina para que as pessoas voltem a sentir saudade e a energia nos shows volte a ser épica como foi em 2024", pontuou.

Balanço e Estrutura do Repertório

Abaixo, a síntese do comportamento da plateia ao longo dos blocos da apresentação do Avenged Sevenfold:

Fase da PerformanceSonoridade & EstéticaFaixas EmblemáticasReação Dominante da Plateia
Abertura (Pós-atraso)Heavy Metal Tradicional / Riffs MarcantesNightmare, Afterlife, Shepherd of FireEntusiasmo inicial, alívio após o atraso e coros pontuais
Pausa EmocionalBalada Hard Rock / Solos MelódicosSeize the Day, Buried AliveBraços erguidos, celulares acesos e acolhimento nostálgico
Bloco ExperimentalMetal Progressivo / Vocoder e SintetizadoresNobody, MagicApatia, silêncio, dispersão e estranhamento do vocalista
Reta FinalMetal Moderno / Arranjos ComplexosBat Country, Unholy Confessions, CosmicRetorno morno dos moshpits e encerramento anticlimático
Ao optar pela defesa irrestrita de sua atual fase conceitual em detrimento do apelo popular que consagrou sua trajetória, o Avenged Sevenfold entregou uma apresentação tecnicamente impecável, porém emocionalmente distante. Resta saber se o grupo dará um tempo no relacionamento recém-reatado com o público brasileiro ou se arriscará uma nova vinda em breve — e se, na próxima oportunidade, os bangers cariocas continuarão agindo com tanta "educação".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Portal Hora da Notícia: Veja os Especiais de Fim de Ano

O Dono da Noite: Por que Paulo Mendes é o nome que você não vai esquecer

O Microfone em Luto: RECORD Presta Homenagem a Oscar Schmidt.