Sem apelar para o passado, Sepultura arrisca setlist 100% focado na "era Derrick Green" em despedida histórica do Palco Mundo
Em sua penúltima apresentação no Brasil e marcando a 12ª participação no festival, maior representante do metal nacional exclui clássicos das décadas de 1980 e 1990, estreia faixa de novo EP e incendeia a Cidade do Rock com fúria conceitual; ouvimos a multidão na grade após o show.
Henry Freitas, Daniel Tocatelli e Juliana Russo | Repórteres Culturais | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, RJ
Publicação: Dia 06 de Setembro de 2026 às 01:45.
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| Sepultura se apresentou no Rock in Rio na tarde deste sábado (05) - Divulgação/ Portal Hora da Notícia. |
A história do Sepultura com o Rock in Rio é moldada por recordes e números superlativos. Empatada com os portugueses do Xutos & Pontapés como a banda que mais vezes subiu aos palcos do evento na história — 12 apresentações no total, atrás apenas do fenômeno pop Ivete Sangalo —, a formação atual do grupo mineiro decidiu transformar sua penúltima performance em solo brasileiro em um manifesto de coragem artística e afirmação de identidade.
Pressionados pelo clima de nostalgia que cerca a turnê global de despedida Celebrating Life Through Death, que roda os palcos mundiais há quase três anos, Andreas Kisser (guitarra), Derrick Green (vocal), Paulo Xisto Jr. (baixo) e o virtuoso baterista norte-americano Greyson Nekrutman, de 24 anos, apostaram em um formato inédito. Na tarde deste sábado (5), ao abrirem a programação de shows do Palco Mundo, o quarteto executou um repertório constituído exclusivamente por composições lançadas a partir de 1998, momento em que Derrick assumiu os vocais após a saída turbulenta do fundador Max Cavalera em 1996.
A aposta estratégica de Andreas Kisser e a audácia do repertório
A decisão de expurgar do setlist os hinos absolutos do metal mundial que projetaram o grupo internacionalmente — como Roots Bloody Roots, Ratamahatta, Arise, Territory e Attitude — representou um cálculo meticuloso. A estrutura enxuta exigida pelos festivais abriu a brecha perfeita para testar o formato sem comprometer a narrativa central da turnê de encerramento, cuja noite final definitiva ocorrerá em São Paulo, no dia 7 de novembro, com o setlist cronológico completo.
Iniciando a celebração com a fúria cadenciada de What I Do!, o Sepultura demonstrou domínio absoluto da massa. O show resgatou pedras fundamentais da discografia recente, passeando por trabalhos dos álbuns Against (1998), Nation (2001), Roorback (2002) e Machine Messiah (2017), além da execução na íntegra do EP derradeiro The Cloud of Unknowing (2025). O momento culminante da apresentação ocorreu com a estreia mundial ao vivo da inédita Sacred Books, faixa que teve sua arquitetura de riffs intrincados e percussão tribal testada diante dos 100 mil espectadores que lotavam o gramado da Barra da Tijuca.
No palco, a dinâmica do grupo refletiu um entrosamento que beirava a cumplicidade. Andreas Kisser, visivelmente emocionado, liderou o público enquanto Greyson Nekrutman entregava uma performance técnica e explosiva na bateria, provando o vigor de sua adição recente ao grupo. Andreas reiterou o sentimento de que a banda vive sua melhor fase técnica e emocional na estrada, mantendo-se irredutível quanto à decisão final de encerrar definitivamente as atividades do Sepultura ao término da agenda da América Latina.
O veredito da pista: O que disseram os fãs na grade após o show
A ausência dos clássicos das eras Chaos A.D. (1993) e Roots (1996) não diminuiu a intensidade do público. Pelo contrário: quando Andreas Kisser convocou "a maior roda da história do festival", centenas de bangers correram para o centro da pista, formando um moshpit gigantesco sob fumaça vermelha de sinalizadores. Logo após o encerramento da apresentação com as potentes Choke e Means to an End, a reportagem do Portal Hora da Notícia ouviu os fãs que acompanharam cada segundo colados às grades de proteção.
- Reconhecimento da trajetória de Derrick Green: Para o bancário paulista Marcos Vinícius Amaral, de 42 anos, que ostentava uma bandeira da banda, o repertório foi uma reparação histórica justa. "Todo mundo esperava o feijão com arroz de sempre com Roots, mas o que o Sepultura fez hoje aqui foi histórico. O Derrick está na banda há mais de 25 anos, gravou álbuns absurdos como o Quadra e o Machine Messiah. Ele merecia uma despedida do Palco Mundo onde a voz dele fosse a única protagonista. Foi um presente pra quem acompanha a banda de verdade", afirmou.
- Surpresa e validação dos novatos: A estudante carioca Helena Siqueira, de 21 anos, destacou a energia do novo baterista e a estreia da nova faixa. "A gente achou que ia ser um show nostálgico, mas eles entregaram uma surra de peso moderno. Ver a estreia de Sacred Books aqui no Rio de Janeiro e acompanhar o Greyson destruindo na bateria deu uma sensação de que eles estão saindo no topo absoluto do desempenho. A roda no final foi insana, ninguém sentiu falta de nada", relatou a jovem.
- Respeito dos fãs das antigas: O engenheiro mineiro Rodrigo Castilho, de 51 anos, que acompanha a banda desde meados dos anos 1980, admitiu a surpresa inicial, mas louvou a postura do grupo. "Confesso que quando percebi que eles não tocariam Territory bateu um susto, mas em cinco minutos de show essa sensação sumiu. O Sepultura provou que não é uma banda refém do próprio passado. O som da era Derrick é pesado, é técnico, tem identidade. Eles encerraram o ciclo no Rock in Rio com a cabeça erguida e sem apelar para a caridade da nostalgia", pontuou.
Cronologia da Apresentação e Blocos de Repertório
Abaixo, a divisão conceitual do setlist exclusivo apresentado pelo Sepultura na Cidade do Rock:
| Fase da Performance | Álbuns e Trabalhos Representados | Destaques do Repertório | Reação e Dinâmica da Plateia |
| Abertura e Afirmação | Against (1998) / Fase Inicial com Derrick | What I Do!, Choke | Choque inicial do público seguido de explosão imediata na pista |
| Consolidação Técnica | Nation (2001) / Roorback (2002) / Machine Messiah (2017) | Means to an End | Riffs pesados, vocais guturais alinhados e resposta em coro |
| Lançamento & Inédita | EP The Cloud of Unknowing (2025) | Estreia ao vivo de Sacred Books | Curiosidade técnica, recepção eufórica e aprovação dos bangers |
| Clímax e Despedida | Fase Contemporânea e Encerramento de Set | Execução integral do novo EP / Choke | Roda de bate-cabeça gigante convocada por Andreas e sinalizadores |
Com a marca de 12 participações cravada na história do festival e uma apresentação que recusou o caminho mais fácil, o Sepultura encaminha seus passos finais rumo ao encerramento definitivo da carreira. A passagem pelo Palco Mundo do Rock in Rio 2026 entra para o acervo do metal como a prova cabal de que a integridade artística da maior banda da América Latina permaneceu inabalada até o último acorde.
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