Resistência, Banho de Chuva e Balacobaco: BaianaSystem Faz Show Histórico no Rock in Rio e Fãs Exaltam "Missa de Lavar a Alma"

Dirigido por Alice Carvalho, espetáculo "O Ciclo" mistura afro-pop, discursos políticos e o triolim de Dodô sob temporal no Palco Sunset.

Henry Freitas, repórter e editor cultural | Direto da Cidade do Rock, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Data de Publicação: domingo, dia 06 de setembro de 2026 | Hora: 20:55.
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Baiana System faz show histórico no Palco Sunset neste domingo (06) - Divulgação/ Portal Hora da Notícia.

RIO DE JANEIRO — Não era apenas chuva; era um verdadeiro toró lavado que desabava sobre a Cidade do Rock na tarde deste domingo (6). Mas, para o BaianaSystem, intempérie climática nunca foi obstáculo — é matéria-prima para o sagrado. Estreando com um show solo no Palco Sunset do Rock in Rio, o grupo baiano apresentou o arrebatador espetáculo “O Ciclo”, concebido e dirigido por Russo Passapusso, pelo artista visual Filipe Cartaxo e pela atriz potiguar Alice Carvalho. O resultado foi uma das performances mais catárticas, densas e politicamente afiadas da história recente do festival.

A abertura não poderia ter sido mais profética. Sob o temporal que apertava a cada minuto, a banda deu os primeiros acordes de “Água” (2019). Quando Russo entoou o verso “Chuva miúda não mata ninguém”, o público, já encharcado até os ossos, respondeu com um rugido em uníssono. “Deixa molhar, people, é bênção!”, bradou o vocalista, transformando o desconforto em transe coletivo. Na sequência, o hino “Sulamericano” colocou o gramado em erupção: “Não passa disso, não me engana, que eu sou sulamericano lá de Feira de Santana!”.

A Arquitetura Sound System e o Inédito Triolim

Em pouco menos de uma hora de apresentação, o BaianaSystem deu uma verdadeira aula de antropofagia musical. O espetáculo conseguiu costurar, com maestria e peso cirúrgico, o dub jamaicano, o samba-reggae, a cumbia, o rock visceral, a música orquestral e a tradição da guitarra baiana.

O show marcou a estreia nos palcos do triolim — instrumento histórico idealizado por Dodô (mítico criador do trio elétrico ao lado de Osmar) —, que trouxe um colorido timbrístico inédito às criações do grupo. Somaram-se a essa arquitetura sonora as vozes femininas e os arranjos da Orquestra Afrosinfônica, ampliando a dimensão ritualística do espetáculo e conferindo contornos de missa profana ao Palco Sunset.

A atriz Alice Carvalho, além de assinar a direção criativa ao lado de Russo e Cartaxo, protagonizou um dos momentos mais poéticos do show ao subir ao palco perto do final para declamar um poema de forte impacto social. A intervenção dialogou diretamente com as projeções visuais assinadas por Cartaxo: em momentos chave, a frase “Ordem e Progresso” da bandeira do Brasil projetada no telão dava lugar à estampa “Sem Anistia”, enquanto Russo repetia feito mantra a palavra “Soberania!”.

O Resgate da Cultura Popular e a Conexão Carioca

O espetáculo “O Ciclo” reflete uma pesquisa contínua e profunda que o BaianaSystem desenvolve no projeto “Nossa Cultura em Primeiro Lugar”. A iniciativa busca descentralizar os grandes eixos e retroalimentar o balaio da cultura popular brasileira, promovendo o intercâmbio com mestres tradicionais por onde a banda passa — como ocorreu recentemente em Caruaru, Pernambuco, em apresentação conjunta com a lendária Banda de Pífanos Zé do Estado.

Para saudar o público carioca, o grupo reservou para o trecho final a recente “Balacobaco” (2026), parceria com a cantora Anitta. A introdução, que decreta “hoje terá balacobaco com pandeiro, cavaco e com samba de prato”, funcionou como o síntese perfeito da ética do coletivo: “não importa o que você tem, o que importa é o que você faz com o que tem”.

“Foi um Batismo!”: A Repercussão Entre o Público Encharcado

Ao término da apresentação, o clima na saída do Palco Sunset era de extase absoluto. A reportagem conversou com espectadores que encararam o lamaçal e a tempestade do início ao fim para vivenciar a experiência.

A professora baiana Luciana Menezes, de 38 anos, que mora no Rio há cinco e fez questão de levar a filha adolescente, resumiu a emoção: “Ver o Baiana trazer o triolim, a Orquestra Afrosinfônica e essa mensagem política tão forte pro Rock in Rio, debaixo desse temporal, não foi um show. Foi um batismo de lavar a alma. A gente sai molhada, mas com a cabeça erguida”.

Já o designer carioca Matheus Brant, de 26 anos, destacou a energia das rodas de dança que se formaram na lama: “Eu nunca vi o Palco Sunset tremer desse jeito. O chão virou uma grande poça, mas ninguém parou de pular um segundo. A entrada da Alice Carvalho declamando e o telão pedindo 'sem anistia' foram de arrepender até o último fio de cabelo. O BaianaSystem é o maior patrimônio vivo da nossa música!”.

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