Afro-pop, Chuva e Samba: Calema Enfrenta o Tempo Fechado e Conquista o Rock in Rio com Participação de Dilsinho.

Mesmo debaixo de tempestade, duo de São Tomé e Príncipe entrega show emocionante no Palco Sunset, une ritmos africanos ao pagode brasileiro e emociona ao citar 'Dois Filhos de Francisco'.

Henry Freitas | repórter e editor cultural | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: Dia 06 de Setembro de 2026 às 17:50.
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Calema abriu o terceiro dia do Rock in Rio 2026 ao se apresentarem no Palco Sunset - Divulgação/ Portal Hora da Notícia.

Rio de Janeiro — A tarde deste domingo (6) começou desafiadora no Palco Sunset. Sob uma chuva intensa e persistente que apertou logo nas primeiras horas de festival, a dupla Calema encarou a missão de abrir a programação do espaço para um público que ainda se acomodava e vestia capas de plástico pela Cidade do Rock. Mas o que tinha tudo para ser uma apresentação tímida acabou se transformando em uma celebração vibrante de afetividade, ritmo e conexão cultural entre a África, Portugal e o Brasil.

Formado pelos irmãos Fradique e António Mendes Ferreira, naturais de São Tomé e Príncipe, o duo é um fenômeno de multidões na Europa — tendo lotado recentemente o Rock in Rio Lisboa —, mas ainda buscava consolidar seu nome perante o grande público brasileiro. Se o clima tentou esfriar os ânimos no gramado, a energia dos irmãos fez o efeito oposto, apostando no calor do afro-pop e em harmonias vocais impecáveis para prender a atenção de quem passava.

Parcerias Nacionais e o Encontro com o Pagode

A aproximação do Calema com a música brasileira não começou no festival. Os irmãos já acumulam parcerias de peso com nomes do sertanejo e do axé, como Lauana Prado (no hit "Xê Dama") e Léo Santana (no single recente "Oi Amor?"), além de já terem dividido palco com Anitta na turnê europeia da cantora. No Rock in Rio, contudo, essa aliança ganhou contornos ainda mais calorosos com a entrada do cantor Dilsinho.

O pagodeiro subiu ao palco para dividir os vocais na faixa "Leva Tudo", em um dos momentos mais celebrados da tarde. A fusão do balanço afro-pop com o romador do pagode carioca fez o público esquecer a chuva e cantar junto. "É uma honra gigante estar aqui dividindo esse momento histórico com esses irmãos que representam tanto para a música em língua portuguesa", declarou Dilsinho no palco.

Raízes Afropop e Referências Culturais

O repertório do show viajou pela trajetória da dupla, que começou a ganhar projeção internacional após uma passagem marcante pelo The Voice França — hoje, ironicamente, Fradique e António ocupam as cadeiras de mentores na versão portuguesa do programa. Faixas icônicas como "Vai", "Amar Pela Metade" e "A Nossa Vez" (apresentada como o marco zero da carreira) garantiram o tom romântico do início da apresentação.

Mas foi nas faixas mais dançantes, como "Kua Buaru" e "Bulawe", que a raiz africana do duo transbordou. Cantando expressões em línguas locais como "Amole, muxima, sodade, maningue, i kuma", os irmãos ensinaram os passos de dança ao público enquanto ostentavam com orgulho a bandeira de São Tomé e Príncipe.

A pluralidade cultural seguiu em "Maria Joana", faixa na qual o duo dividiu o palco com bailarinos vestidos em trajes folclóricos tradicionais portugueses, sintetizando a ponte artística que constroem entre o continente africano e a Europa.

Inspiração no Cinema Brasileiro e Despedida Promissora

Antes de embalar a emocionante balada "Nossa Dança", os irmãos fizeram questão de conversar abertamente com a plateia sobre a relação de afeto que mantêm com o Brasil desde a infância. Entre sorrisos e agradecimentos emocionado, revelaram uma curiosidade que pegou o público de surpresa: o motor de perseverança para não desistirem da música nos momentos mais difíceis foi o cinema brasileiro.

"A gente assistiu ao filme 'Dois Filhos de Francisco' anos atrás, na nossa terra, e a história daquela família nos ensinou o que era persistir por um sonho. O Brasil sempre esteve no nosso coração antes mesmo de pisarmos aqui", revelaram, arrancando aplausos calorosos de quem aguentava firme o temporal no gramado.

Ao encerrar a apresentação, o Calema deixou claro que a estreia na Cidade do Rock é apenas o primeiro passo de uma trajetória mais longa no país. Combinando a sensibilidade do pop romântico, a riqueza rítmica do afro-pop e um carisma contagiante, Fradique e António provaram que a música em língua portuguesa não tem fronteiras — e que nem mesmo a tempestade carioca é capaz de apagar o brilho de uma grande estreia.

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