O último rugido das guitarras: Entre a consagração da nova geração, despedida histórica e apatia no Palco Mundo, 2º dia do Rock in Rio celebra o metal

Com público de 100 mil pessoas e tempestade intermitente, sábado (5) encerra a etapa dedicada ao rock pesado com estreias apoteóticas do Bad Omens e Bring Me The Horizon, manifesto do Black Pantera, linchamento verbal a MGK e a morosidade do Avenged Sevenfold.

Henry Freitas, Carlos André Mamedes, Juliana Russo, Daniel Tocatelli e Felipe Barreto | repórteres especiais | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: Dia 06 de Setembro de 2026 às 11:50.
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Shows Marcantes e Cantor Hostilizado marcaram o segundo dia do Rock in Rio 2026 - Divulgação/ Montagem HDN

A Cidade do Rock viveu, neste sábado (5), a sua grande celebração anual dedicada à música pesada. O segundo dia da edição de 2026 do Rock in Rio representou não apenas o ápice do peso sonoro no festival, mas também a despedida formal dos dias exclusivamente voltados ao rock e ao heavy metal. A partir deste domingo (6), o evento ruma para uma guinada Pop e eletrônica com nomes como Calvin Harris, Ne-Yo e Black Eyed Peas.

Apesar de a organização colocar 100 mil ingressos à venda para este sábado, as bilheterias não esgotaram totalmente — reflexo de um line-up que apostou fortemente no rejuvenescimento do gênero e na transição de gerações. A promessa de temporal se confirmou ainda durante a tarde, mas a chuva deu tréguas estratégicas, permitindo encontros memoráveis, discursos políticos incisivos na lama e uma montanha-russa de emoções entre o Palco Mundo e o Palco Sunset.

O palco principal do festival viveu momentos de absoluto contraste ao longo da programação, flutuando entre a entrega visceral do Bring Me The Horizon e a postura cerebral — e morna — do Avenged Sevenfold.

Bring Me The Horizon (O espetáculo imersivo e o carisma de Oli Sykes): Foram necessários 22 anos de carreira para que os britânicos do Bring Me The Horizon pisassem, pela primeira vez, no Palco Mundo do Rock in Rio. Em sua sexta passagem pelo Brasil, o grupo liderado por Oliver Sykes entregou uma performance histórica e altamente tecnológica. Com avisos nas telas alertando para "violência explícita e gore", o palco foi transformado em uma grande arena de videogame ambientada em um cenário pós-apocalíptico repleto de ruínas e esqueletos. Abrindo com a explosiva DArkSide, faixa do álbum Post Human: Nex Gen (2024), a banda passeou por toda a sua evolução sonora. Esbanjando brasilidade e com um português surpreendentemente afiado, Oli cometeu um pequeno deslize ao chamar o Rio de Janeiro de "São Paulo", mas corrigiu o ato imediatamente ao convocar um fã vestido com a camisa da Seleção Brasileira para dividir os vocais no palco. Sorprendendo os admiradores das antigas, o grupo resgatou raridades de seu álbum de estreia, provocando moshpits gigantescos sob a chuva.

Sepultura (A despedida exclusiva da 'Era Derrick Green'): Prestes a encerrar definitivamente suas atividades, o lendário grupo brasileiro realizou seu penúltimo show em solo nacional — e o último de sua trajetória no Rock in Rio. Em vez do setlist convencional de grandes sucessos de toda a carreira, o guitarrista Andreas Kisser e seus companheiros optaram por uma apresentação conceitual e inédita: um repertório focado exclusivamente na "Era Derrick Green", contemplando os trabalhos lançados a partir de 1998, quando o vocalista norte-americano assumiu o posto deixado por Max Cavalera. Aproveitando a flexibilidade e a autonomia dos shows de festival dentro da turnê de despedida Celebrating Life Through Death, o Sepultura entregou uma performance pesadíssima e precisa. A escolha corajosa honrou quase três décadas de dedicação de Derrick ao grupo e foi recebida com reverência e aplausos efusivos pelos bangers no gramado.

MGK (Linchamento verbal, tensão e nostalgia emo): O cantor e rapper norte-americano Colson Baker, o MGK, enfrentou o público mais hostil da noite. Tentando condensar em uma hora sua transição do hip-hop para o pop-punk e emo, o artista esbarrou no preconceito e na impaciência dos fãs de Avenged Sevenfold que já ocupavam as primeiras fileiras do Palco Mundo. Diante de vaias e xingamentos logo nos primeiros minutos, MGK interrompeu a apresentação para tentar acalmar a plateia: "Sou apenas um cara de Ohio vivendo meu sonho e cantando para os meus fãs. Existem dois tipos de música: a boa e a ruim", disparou o cantor, visivelmente desconfortável. Apostando em arranjos mais pesados do álbum FIX UR FACE e ignorando seu maior sucesso comercial (Bad Things, parceria com Camila Cabello), MGK fez um show correto e esforçado, mas não conseguiu reverter a má vontade da ala mais radical dos metaleiros.

Avenged Sevenfold (Atraso imprevisto, guinada conceitual e desconexão): Escalados pela segunda vez na história como atrações principais do festival, os californianos do Avenged Sevenfold deixaram uma impressão amarga na Cidade do Rock. Subindo ao palco com 30 minutos de atraso sem qualquer aviso prévio nos telões, a banda encontrou uma plateia desgastada pela espera e pela chuva. A recepção morna fez o vocalista M. Shadows ironizar o público no microfone: "Vocês estão tão educados hoje. É a chuva?". A apatia do show decorreu tanto da superexposição do grupo no país — que fazia sua terceira vinda ao Brasil em apenas dois anos — quanto de um setlist arriscado. Enquanto clássicos como Nightmare, Afterlife e a resgatada Seize the Day provocaram reação, as novas composições e seus arranjos cheios de vocoder, sintetizadores e métricas progressivas como Nobody e Magic esfriaram a arena, resultando no encerramento mais anticlimático do festival até aqui.

Palco Sunset: "Sofrência metalcore", choque cultural e manifestos sociais

No Palco Sunset, a diversidade do rock moderno mostrou sua força máxima em apresentações marcadas pela emoção dos fãs e por fortes posicionamentos do palco para a pista.

Bad Omens (A coroação da nova era e o fenômeno das redes): Fechando a programação do Palco Sunset, os norte-americanos do Bad Omens fizeram sua estreia apoteótica no Rock in Rio. Apontados como os maiores expoentes da "sofrência do metalcore" por suas letras melancólicas embaladas por bases eletrônicas, R&B e riffs pesados, o quarteto liderado por Noah Sebastian fez a plateia jovem delirar. O grande momento ocorreu na reta final com o hit viral Just Pretend — carinhosamente apelidado no Brasil de a "Te Esperando dos gringos" —, cantado em uníssono por milhares de pessoas com celulares ao alto. A banda optou por retirar do repertório a parceria V.A.N., atendendo aos pedidos da internet, e concentrou sua energia em entregar um espetáculo visceral para a nova geração.

Poppy (Dualidade kawaii, guturais e remada na lama): A cantora norte-americana Poppy promoveu um verdadeiro choque estético em sua passagem pelo festival. Surgindo com um figurino azul e verde e cantando a faixa Have You Had Enough com doçura e elegância pop, a artista rapidamente revelou sua verdadeira face ao disparar vocais guturais avassaladores amparada por uma banda de apoio mascarada. Transitando do conceito kawaii ao nu-metal industrial com facilidade, Poppy conquistou o público. O ponto folclórico do show ocorreu quando dezenas de fãs, contagiados pela energia, sentaram na lama do gramado para realizar uma "remada viking", culminando em um moshpit gigante a pedido da própria artista antes da saideira com New Way Out.

Black Pantera convida Nervosa (Protesto contra a escala 6x1 e fúria feminina): O encontro entre o trio mineiro Black Pantera e a banda paulista Nervosa figurou entre os momentos mais potentes do dia. Abrindo a apresentação com Hórus e o verso "Em nome do pai, do filho e do preto santo", o Black Pantera transformou o Sunset em um espaço de resistência antirracista e social. Entre rodas púnicas e sinalizadores acesos, o vocalista Charles Gama mandou um recado direto ao dedicar a faixa Tradução à sua mãe: "Essa é pelo fim da escala 6x1, rapaziada!". Na sequência, a entrada de Prika Amaral e da Nervosa para a execução de Serotonina selou a fusão perfeita entre o crossover thrash e o death metal, em uma verdadeira aula de peso com assinatura brasileira.

Malvada convida Day Limns (A afirmação do novo rock nacional): Abrindo os trabalhos do Palco Sunset, a banda Malvada retornou ao festival — após passagem bem-sucedida pela Rock District em 2022 — ostentando bagagem internacional e um novo disco lançado em 2025. O grupo recebeu a cantora Day Limns para uma participação especial que simbolizou a união do hard rock direto com o emo pop contemporâneo, provando a vitalidade e a renovação da presença feminina no rock feito no Brasil.

Resumo das Performances Principais

Abaixo, a consolidação dos momentos mais marcantes do 2º dia de festival:

AtraçãoPalco                 Estilo PrincipalPonto Alto da PerformanceReação Geral do Público
Avenged SevenfoldMundo    Metal Progressivo / Hard RockExecução do clássico Seize the DayRecepção morna, dispersão e estranhamento com o atraso de 30 min
Bring Me The HorizonMundoMetalcore / Alt-Metal TecnológicoFã chamado ao palco e resgate de faixas do 1º álbumEmpolgação generalizada, moshpits massivos e apelo visual
SepulturaMundoThrash / Groove MetalSetlist exclusivo e inédito focado na "Era Derrick Green"Respeito, nostalgia e celebração histórica de despedida
Machine Gun KellyMundoPop-Punk / Emo RockPerformance enérgica de FIX UR FACEHostilidade inicial, divisão de opiniões e vaias dos radicais
Bad OmensSunsetMetalcore Alternativo / Synth-MetalCoro emocionante na viral Just PretendCatarse da nova geração, mar de celulares acesos e aclamação
PoppySunsetIndustrial / Nu-Metal / Pop Kawaii"Remada viking" da plateia na lama e New Way OutSurpresa positiva, empolgação e conversão de novos fãs
Black Pantera + NervosaSunsetCrossover Thrash / Death MetalDiscurso contra a escala 6x1 e dueto em SerotoninaEngajamento político, rodas punk intensas e aplausos acalorados
Malvada + Day LimnsSunsetHard Rock / Pop-RockEncontro de vozes femininas e duetos inéditosAcolhimento caloroso e celebração do rock nacional
Com o encerramento das apresentações na madrugada, o Rock in Rio se despede das distorções pesadas e prepara suas estruturas para transformar a Cidade do Rock em uma gigante pista de dança pop nas próximas datas do festival.

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