O Velório no Ar-Condicionado: Cherki Chora o Fim da "Era Deschamps" Enquanto a Espanha Dança o Flamenco na Zona Mista de Dallas
Com o prestígio francês derretendo mais rápido que sorvete no asfalto do Texas, o jovem meia Rayan Cherki assume o papel de carpideira oficial de uma seleção apática, incapaz de dar um adeus digno ao seu longevo comandante.
Henrique Martins e Felipe Barreto de Oliveira, enviados especiais ao AT&T Stadium, Dallas (EUA).
Data de Publicação: 15 de julho de 2026 às 00:30.
Coluna HDN Esportes >>>> Conexão North American 2026 >>>> Pós França x Espanha
![]() |
| O Cherki que a Espanha jogou melhor na semifinal desta terça-feira (14) contra a Seleção Francesa. |
Se o chocolate tático que a Espanha aplicou dentro das quatro linhas do AT&T Stadium já havia sido um espetáculo de constrangimento público para os franceses, a descida para a zona mista — aquela área repleta de grades onde os jornalistas se acotovelam para conseguir três palavras coerentes de atletas exaustos — conseguiu elevar o nível do drama. Nós, Henrique e Felipe, nos esprememos naquele corredor de concreto frio e úmido, que mais parecia o saguão subterrâneo de uma estação de metrô em dia de greve geral, para ver de perto o estrago psicológico que 90 minutos de roda de bobinho espanhola podem causar em um atleta profissional.
O que testemunhamos ali não foi a revolta de um gigante europeu ferido no orgulho, mas sim o choro contido de uma geração que parece ter entrado em campo de salto alto e saído de pantufas, completamente dominada por uma Espanha que jogou no piloto automático.
O Desabafo na Zona Mista: Cherki e a "Decepção Enorme"
O porta-voz oficial do velório azul foi Rayan Cherki. O jovem meia, que passou boa parte da partida correndo de um lado para o outro de forma inútil, apenas assistindo à troca de passes perfeita de Rodri e Fabián Ruiz, apareceu diante dos microfones com os olhos vermelhos e aquela expressão clássica de quem acabou de descobrir que o Papai Noel não existe. Com a voz embargada e o tom de quem carrega a culpa de uma nação inteira nas costas, Cherki tentou explicar o inexplicável:
“Uma decepção enorme. A França não jogou o futebol que ela sabe e a Espanha jogou seu melhor futebol. Fica o gosto amargo, porque nós tínhamos o sonho de vencer pelo Deschamps e por nós mesmos pela derrota.” — Rayan Cherki, tentando achar uma justificativa para o próprio fiasco.
Olha, Cherki, sejamos francos por um segundo — já que vocês não foram em campo. Dizer que a França "não jogou o futebol que sabe" é de um otimismo quase poético. A verdade nua, crua e detalhada é que os comandados de Didier Deschamps apresentaram um futebol burocrático, lento e sem criatividade, digno de uma pelada de fim de ano entre casados e solteiros, só que com patrocinadores milionários.
A nobre intenção de conquistar o mundo como um presente de despedida para o técnico, que encerra neste Mundial o seu longo e vitorioso ciclo de 14 anos à frente da seleção (onde foi campeão em 2018 como técnico e em 1998 como jogador), acabou parecendo mais uma daquelas homenagens forçadas de repartição pública, onde o funcionário que está se aposentando ganha um relógio de parede barato e um pedaço de bolo de padaria seco. Se esse futebol apático era "pelo Deschamps", imagine a tragédia que teria sido se estivessem jogando contra ele.
A Paternidade Espanhola e os Detalhes da Freguesia
Enquanto Cherki filosofava sobre a dor da derrota e o "gosto amargo" que ficou na boca da delegação francesa, a poucos metros dali o mesmo corredor de concreto parecia uma extensão da Plaza Mayor de Madri. Os jogadores espanhóis desfilavam rindo, carregando caixas de som portáteis tocando reggaeton no volume máximo e exibindo aquela fisionomia relaxada de quem acabou de fazer um treino regenerativo leve em uma tarde de folga. E eles têm toda razão para sorrir.
A Espanha de Luis de la Fuente conseguiu transformar a outrora temida França em sua freguesa de caderneta mais fiel e pontual do continente europeu. Para entender o tamanho do domínio espanhol e o porquê de tanta frustração no lado azul, basta olhar para o histórico recente de confrontos decisivos entre as duas seleções:
- Final da Liga das Nações: A Espanha dominou o meio-campo, controlou as ações e saiu de campo com a taça, deixando os franceses tontos com seu estilo de posse de bola incessante.
- Semifinal da Eurocopa: O roteiro foi praticamente idêntico ao de hoje. A França tentou se fechar, mas a Espanha envolveu os "Bleus" com transições rápidas e uma facilidade irritante, eliminando os franceses sem dar chances de reação.
- Semifinal da Copa do Mundo 2026: O ápice da freguesia. Uma vitória por 2 a 0 construída com a paciência de quem joga uma partida de xadrez contra um adversário que mal sabe mover os peões. O primeiro gol saiu de um pênalti bobo cometido por Lucas Digne sobre Lamine Yamal, convertido por Mikel Oyarzábal. O segundo gol foi uma pintura de infiltração coletiva, onde Pedro Porro tabelou com Dani Olmo e entrou na área livre, como se a defesa francesa fosse composta por cones de trânsito.
Deschamps vai se aposentar da seleção sabendo que, se quiser ter pesadelos realistas pelo resto da vida, basta fechar os olhos e imaginar Luis de La Fuente sorrindo no banco de reservas adversário, enquanto seu time troca passes sem pressa.
O Castigo Final: A Inútil Disputa de Terceiro Lugar
A humilhação francesa agora ganha contornos de tortura psicológica medieval com a agenda da FIFA. Enquanto os espanhóis arrumam suas malas de grife e se preparam para pegar o voo rumo ao MetLife Stadium, em Nova Jersey, onde aguardam o vencedor do clássico entre Inglaterra e Argentina para decidir quem manda no planeta no próximo domingo (19), a França terá que arrastar suas correntes pelo gramado por mais alguns dias.
Eles foram condenados a disputar a famigerada, melancólica e absolutamente inútil decisão de terceiro lugar no próximo sábado (18). Um jogo que tem o apelo emocional de uma palestra sobre contabilidade fiscal num sábado de sol, mas que servirá perfeitamente para prolongar a agonia dos franceses e dar um fim melancólico e sem brilho para a era de Didier Deschamps. Nós, por via das dúvidas, já garantimos nosso bilhete de fuga para Nova Jersey. Alguém precisa cobrir o futebol de verdade.
.jpg)
Comentários
Postar um comentário