Cidade do Rock ouviu o tchau? Gilberto Gil mete o pé dos palcos e emociona o Rock in Rio
Em uma noite histórica e emocionante no Palco Mundo, o gigante da MPB mesclou tecnologia futurista, hinos atemporais, homenagens a ícones da música e um tom direto de despedida que arrepiou gerações na Cidade do Rock.
Henry Freitas, repórter cultural | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: segunda-feira, 07 de setembro de 2026 | Horário: 23:30.
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| Gilberto Gil se apresenta no Rock in Rio e fala de despedida - Divulgação/ Portal Hora da Notícia. |
A caminhada era desacelerada, mas a presença física e artística ainda parecia occupy cada centímetro daquele espaço gigantesco. Quando Gilberto Gil surgiu no Palco Mundo nesta segunda-feira (7), empunhando sua guitarra e envergando um reluzente conjunto branco bordado com pedrarias prateadas, o tempo na Cidade do Rock pareceu congelar. Para abrir os caminhos de uma noite carregada de simbolismo, o baiano escolheu os versos cirúrgicos de “Cérebro Eletrônico”: “Eu posso decidir se vivo ou morro porque sou vivo, vivo para cachorro”. No telão gigantesco ao fundo, uma projeção futurista em 360° da sua cabeça ostentando os cabelos brancos dava o contraste perfeito entre a ancestralidade do mestre e a estética tecnológica do festival.
Logo nos primeiros instantes, ao se dirigir ao público, Gil não usou rodeios nem meias-palavras. Deu um boa noite afetuoso à multidão, relembrou sua trajetória e mandou a real com a honestidade que só os grandes mentes podem ter: “Eu estive aqui no primeiro Rock in Rio. Talvez esse seja o meu último. Estou cansado”. O desabafo sincero ecoou como um nó na garganta da plateia, mas o que se viu a seguir foi uma aula magna de maturidade artística.
Esta marcou a quinta apresentação de Gilberto Gil na história do festival — após duas performances históricas na edição de estreia em 1985, um retorno marcante em 2001 e outro em 2022. Mesmo demonstrando um desgaste físico compreensível pela idade e exibindo uma voz visivelmente mais frágil e contida, o baiano não precisou percorrer grandes distâncias pelo palco para dominar a massa. Com a serenidade de quem conhece o ofício como poucos, ele entregou um show impecável de pouco mais de uma hora, alinhavando 16 faixas que desenham a própria história da música brasileira.
Um Recheio de Clássicos, Parcerias e Homenagens
O repertório foi pensado para mover multidões e celebrar pontes culturais. Entre clássicos absolutos como “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana”, “Realce”, “Pela Internet” e “Palco”, o artista encontrou espaço para transitar por diferentes sotaques e referências. Gil cantou em inglês, homenageou parceiros de vida e referências da sua formação em covers cheios de identidade de Bob Marley, Rita Lee e Nação Zumbi.
Um dos momentos mais altos da noite aconteceu quando o cantor convidou ao palco o lendário produtor e músico Liminha, que assumiu as quatro cordas do baixo para uma versão vibrante de “Vamos Fugir”, levando o público ao delírio.
Setlist do Show: 16 faixas em ~65 minutos
• Abertura: "Cérebro Eletrônico"
• Clássicos: "Andar com Fé", "Toda Menina Baiana", "Realce", "Pela Internet", "Palco", "Vamos Fugir" (feat. Liminha)
• Covers & Homenagens: Bob Marley, Rita Lee e Nação Zumbi
O desembarque no festival carioca aconteceu no rastro de uma maratona intensa. Recentemente, Gil encerrou a turnê “Tempo Rei”, uma jornada apoteótica com cerca de 30 apresentações que arrastou multidões pelo Brasil, Argentina e Chile, culminando em um encerramento emocionante em março no Allianz Parque, em São Paulo. Aquela excursão já vinha sendo anunciada como sua despedida das grandes turnês internacionais e de longos itinerários. Na Cidade do Rock, porém, o recado soou como o encerramento gradual de mais uma etapa: a saída definitiva dos palcos de grandes festivais.
A Conexão com as Novas Gerações e o Legado Eterno
Dias antes de pisar no Palco Mundo, Gil usou suas redes sociais para abrir enquetes e pedir a ajuda dos seguidores mais jovens na montagem do setlist. O gesto não foi apenas interativo; refletiu o grande desafio que o artista abraçou nesta fase final da carreira: garantir que sua obra transborde gerações e continue viva no imaginário dos mais novos quando ele decidir parar de vez.
Trata-se de um catálogo único na MPB, recheado de narrativas de amor, acalantos, inquietações existenciais, manifestos de protesto e mensagens de esperança. Essa aura quase mística de sabedoria que o baiano carrega foi sintetizada de forma bem-humorada pela cantora Juliette durante uma recente entrevista na TV: “Tenho a sensação de que o senhor sabe alguma coisa que ninguém mais na humanidade sabe e que a qualquer momento vai nos contar”.
Quer ele continue fazendo aparições bissextas ou escolha o descanso merecido longe dos holofotes, a discografia de Gilberto Gil permanece intacta como o arquivo vivo de um homem que enfrentou perdas e exílios, mas teima, mantém a fé e insiste em transformar a existência em festa. Há 84 anos, ele segue nos contando esse segredo.
Nota do Show: 10/10
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