Péricles mostra por que é o 'Rei da Voz' em show sem pagode e com hits do soul e R&B norte-americanos

Artista esbanjou virtuosismo vocal e foi ovacionado em apresentação conceitual que homenageou a histórica Gravadora Motown Records no quarto dia de Rock in Rio 2026.

Henrique Martins, repórter cultural | Direto da Cidade do Rock | Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: segunda-feira 07 de setembro de 2026 | Horário: 21:25.
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Péricles fez um show incrível e saiu ovacionado pelo público do Palco Sunset - Divulgação/ Portal Hora da Notícia

CIDADE DO ROCK — Quem já teve a oportunidade de presenciar um show solo de Péricles sabe que o sambista gosta de surpreender o público ao encaixar, no meio de seus grandes sucessos de pagode, a clássica "Stand by Me", de Ben E. King. No entanto, para sua aguardada apresentação no Palco Sunset nesta segunda-feira (7), o artista paulistano resolveu radicalizar: fez da estética e da sonoridade da black music o seu eixo central. E único.

Em uma jogada ousada, Péricles deixou temporariamente de lado a linha musical que o consagrou como um dos maiores expoentes do samba nacional, abraçou um repertório focado nos grandes hits do soul, do R&B e do funk norte-americanos e utilizou o português estritamente nos momentos de conversa e reflexão com a plateia.

O espetáculo tratou-se de uma homenagem direta à lendária Motown Records, gravadora fundamental para a integração racial na música popular dos Estados Unidos e berço conceitual da matriz afro-americana no pop mundial. Criado exclusivamente para a edição de 2026 do festival, o projeto nasceu de uma provocação de Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, e foi abraçado de imediato pelo cantor.

Fundada em 1959 por Berry Gordy Jr. na cidade de Detroit, a Motown notabilizou-se por lançar e projetar quase que exclusivamente artistas negros em uma época em que o território americano sofria com leis de segregação racial severas. O selo revelou nomes imortais da música global, a exemplo de Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Supremes, The Temptations, The Jackson 5, Diana Ross, Lionel Richie, Martha & The Vandellas e Smokey Robinson & The Miracles.

Para Péricles, a influência do selo extrapola a questão artística. Em entrevista concedida às vésperas de sua apresentação na Cidade do Rock, o cantor revelou que a trajetória da gravadora foi a inspiração direta para que ele tivesse coragem de fundar seu próprio selo musical e sua estrutura de gerenciamento de carreira, a Farias Produções. "Exemplos como o da Motown mexem profundamente com a nossa cabeça e com a nossa postura empresarial", afirmou.

Fidelidade Conceitual, Excelência Vocal e Repertório

Quem foi até o Palco Sunset esperando ouvir clássicos do pagode romântico como "Até Que Durou", "Melhor Eu Ir" ou os hinos atemporais da época do Exaltasamba, pode ter enfrentado certo choque inicial. Em contrapartida, quem se dispôs a vivenciar um espetáculo conceitual e presenciar a extensão do apelido de "Rei da Voz" que o artista carrega saiu da Cidade do Rock impressionado com o alcance, o tom e a versatilidade técnica de Péricles.

Trajando um figurino todo trabalhado em prateado e ostentando uma imponente capa estampada com fotos históricas dos ícones da gravadora homenageada, Péricles abriu o show em grande estilo com "Ain't No Mountain High Enough", clássico imortalizado na voz de Marvin Gaye, emendando sem pausas o balanço contagiante de "I Want You Back", do Jackson 5.

O setlist continuou desfiliando pérolas do catálogo norte-americano. Canções como "My Girl" (The Temptations), "Cruisin'" (Smokey Robinson), "I'll Be There" (Jackson 5), "End of the Road" (Boyz II Men), "Let's Get It On" (Marvin Gaye) e "All Night Long" (Lionel Richie) ganharam interpretações impecáveis, sustentadas pelo alcance vocal poderoso e pelas variações timbrísticas do intérprete brasileiro.

Acompanhado por uma banda entrosada de nove músicos e quatro backing vocals reunidos especialmente para o festival, Péricles exibiu total domínio cênico, movimentando-se pelo palco, dançando e demonstrando leveza do início ao fim. O feito torna-se ainda mais notável ao considerar que a rotina intensa de ensaios para o festival ocorreu simultaneamente à produção de seu próximo álbum de inéditas, previsto para chegar às plataformas no fim de setembro.

Ao todo, o roteiro contou com 14 faixas minuciosamente selecionadas. A célebre "Stand by Me", curiosamente, ficou de fora da apresentação — uma escolha coerente, uma vez que a canção pertence originalmente ao catálogo da Atlantic Records e não ao acervo da Motown. O encerramento veio em clima de apoteose com a dobradinha "ABC" (Jackson 5) e a explosão funk-soul de "Superstition" (Stevie Wonder).

Representatividade e o Futuro do Pagode no Festival

Não é a primeira vez que Péricles aceita desafios fora de sua zona de conforto em Grandes Palcos. Em 2024, o cantor já havia participado do show coletivo em homenagem a Alcione, entregando interpretações marcantes de clássicos da MPB como "Sufoco" e "Você Me Vira a Cabeça". A exibição solo desta segunda-feira reafirma que o artista está mais do que pronto para assumir um show autoral completo nos palcos principais do evento, consolidando a presença do pagode e do samba no lineup do festival — espaço que também contou com a presença de Belo, que se apresentava simultaneamente no Palco Favela.

O próprio Péricles reforça o argumento sobre o valor da inclusão de ritmos populares e periféricos em grandes eventos de entretenimento. “Quando a gente fala de rock, a gente fala da atitude rock and roll, da atitude de revolucionar. O samba e a black music já vêm mostrando isso há muito tempo. Em um palco da dimensão do Rock in Rio, nada mais justo do que a gente ter a presença de todas as vertentes que fazem a diferença e que fazem a revolução na nossa cultura”, declarou o cantor.

Péricles entregou uma das performances vocais mais impecáveis, corajosas e memoráveis da história recente do festival. Um verdadeiro show de classe de um Rei da Voz que domina a arte de cantar em qualquer idioma ou gênero musical.

Cotação: ★★★★★★★★★★ (Simplesmente Espetacular / Nota: 100)

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