E no Quarto Dia, a Cidade do Rock Tremeu: Entre Lágrimas de Adeus, Oração de Soul e o Deboche do Tempo
Uma segunda-feira (7) inesquecível para rasgar o roteiro, chorar sem vergonha, debochar da velhice e ouvir quem viveu essa maratona de perto.
Carlos André Mamedes, CEO e editor-chefe | Direto da Sede Hora da Notícia, no Rio de Janeiro.
Data de Publicação: quarta-feira, 09 de setembro de 2026 às 00:25.
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| Primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 mostrou que nada pode parar o maior festival de rock do mundo - Reprodução/ Rock in Rio |
Tem dia que o Rock in Rio é só um evento corporativo bonito com cerveja cara, ativações instagramáveis e filas quilométricas para brindes. Mas tem dia que essa arena vira um templo profano de celebração. A segunda-feira (7) da edição de 2026 não entregou apenas shows no papel; entregou terremotos emocionais, desabafos de rasgar o peito e uma magia crua que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.
O quarto dia foi uma lição sobre o tempo: aquele que enruga a pele, mas dá uma aula de soberania quando encontra gigantes. Entre veteranos que riem da biologia e novatos que redefinem gêneros centenários, o festival viveu uma das suas jornadas mais viscerais. E na grade, o público sentiu cada nota.
Sr Elton John: Aposentado? Apenas Debochando da Biologia
Sabe o papo solene de "turnê de despedida"? Elton John olhou para o conceito de aposentadoria e jogou no lixo. Aos 79 anos — o headliner mais velho a comandar a Cidade do Rock —, o britânico surgiu no Palco Mundo como um holofote ambulante. De paletó amarelo fluorescente e óculos extravagantes, deu uma surra de classe em qualquer novinho que acha que show é pular em cima de base pré-gravada.
Foram 2 horas e 15 minutos de transe. Beneficiado pelo descanso após a Farewell Yellow Brick Road, exibiu uma voz encorpada e potente. Viajou por 24 hinos ao piano, sem precisar de balé ou pirotecnia para prender 100 mil pessoas. A reta final com "Crocodile Rock", "Saturday Night's Alright for Fighting" e "I'm Still Standing" foi de arrepiarem os braços.
"Eu vim de Curitiba só por causa dele. Quando anunciou a aposentadoria em 2023 sem passar no Brasil, eu chorei de raiva. Ver esse homem velhinho, aos 79 anos, esmurrando esse piano com essa voz impecável é a maior experiência da minha vida. Ele é imortal!"
— Marcio Silveira, 52 anos, engenheiro
| Momento do Show | O Que Aconteceu no Palco Mundo |
| Abertura Certeira | Ataque imediato ao piano, mostrando técnica afiada e alcance vocal renovado. |
| Tributo a Marilyn | Execução solo arrepiante de "Candle in the Wind", lembrando o centenário do ícone. |
| Ponte com o Pop | Feat virtual com Dua Lipa no telão para colocar a arena para dançar "Cold Heart". |
| O Fenômeno BR | Performance de "Skyline Pigeon", lembrada por Elton como a música que só virou épico no Brasil graças à novela Carinhoso (1973). |
| A Saideira | A simplicidade mágica de "Your Song" selando uma exibição histórica. |
O único vacilo foi da produção visual: os telões exibiram vídeos conceituais genéricos e trechos de Rocketman em momentos de virtuosismo ao piano ("Tiny Dancer" e "Honky Cat"), esquecendo de mostrar o próprio Elton tocando. Um erro crasso que não apagou o brilho de um deus vivo.
Gilberto Gil: O Nó na Garganta de 100 Mil Pessoas
Se Elton veio para triunfar, Gilberto Gil veio para partir nosso coração em mil pedaços e colar de volta com poesia. Aos 84 anos, na sua quinta aparição no festival — 41 anos após a estreia em 1985 —, Gil subiu ao Palco Mundo caminhando devagar, de conjunto branco cravejado e guitarra a tiracolo. Não mascarou o peso dos anos, e foi aí que morou a beleza dolorosa da noite.
Ao soltar os versos de “Cérebro Eletrônico” (“Eu posso decidir se vivo ou morro porque sou vivo, vivo para cachorro”) e desabafar: “Estou cansado, talvez este seja meu último Rock in Rio”, um nó aperto a garganta da multidão. A voz estava frágil? Estava. Mas quem liga para afinação milimétrica diante de tamanha alma? Com Liminha no baixo em "Vamos Fugir", o mestre entregou 16 canções essenciais ("Andar com Fé", "Realce", "Palco"), deixando o recado de manter seu legado vivo.
"Trouxe minha filha de 16 anos porque precisava que ela visse o Gil ao vivo ao menos uma vez. Quando ele falou que estava cansado e que podia ser o último show, me desabei em lágrimas. Gil é o Brasil que deu certo, é ancestralidade pura."
— Fernanda Vasconcelos, 44 anos, professora
O Mosaico dos Palcos: Do Transe de Batiste à Invasão do Pagode e Bossa Nova
Nos outros cantos da Cidade do Rock, a curadoria acertou em cheio ao diversificar os ritmos, gerando momentos memoráveis em cada palco.
| Atração / Palco | O Que Aconteceu por Lá? | O Que Disse Quem Estava na Grade? |
| Jon Batiste (Sunset) | Misturou jazz, blues, samba e percussão carioca em uma missa profana vestindo camisa do Brasil. | "Foi uma experiência espiritual! Ele desceu do palco, foi pra galera, misturou o som de Nova Orleans com o nosso samba. Melhor show do festival até agora!" — Lucas Mendes, 29 anos |
| Laufey (Sunset) | De vestido rosa vintage, a cantora de 27 anos provou que a Geração Z ama jazz. Arriscou "Perdido de Amor" em português. | "Ela trouxe o jazz de volta pros jovens. Ouvir ela cantando Luiz Bonfá com aquele sotaque fofo foi o momento mais lindo da noite!" — Beatriz Lima, 19 anos |
| Péricles canta Motown (Sunset) | O "Rei da Voz" deixou o pagode de lado para homenagear a black music norte-americana em inglês. | "Eu vim esperando pagode e recebi uma aula de Soul de igreja americana. O Péricles é o maior vocalista desse país, sem discussão!" — Thiago Rocha, 36 anos |
| Luísa Sonza & Menescal (Palco Mundo) | Misturou pop urbano com um bloco de 18 minutos de bossa nova ao lado de Roberto Menescal. | "A parte de bossa nova foi linda e corajosa, mas o som do Palco Mundo estava abafado demais nas músicas mais pesadas." — Camila Duarte, 23 anos |
| Roupa Nova & Guilherme Arantes (Sunset) | Uniram forças para desfilar clássicos das trilhas sonoras da TV brasileira. | "Parecia que eu estava dentro de uma novela dos anos 80. Todo mundo cantando do início ao fim, sem exceção!" — Roberto Carlos Alencar, 61 anos |
| Vanessa da Mata (Sunset) | Abriu o Sunset celebrando 20 anos de carreira com hits e participação de Rubel. | "Ela tem uma energia solar única. 'Ai, Ai, Ai...' fez o palco inteiro virar uma festa de MPB sem parecer apelativo." — Juliana Paes, 31 anos |
| Belo (Espaço Favela) | Travou a geografia do festival ao desfiar uma maratona de pagodes românticos dos anos 90. | "O Espaço Favela ficou pequeno demais pro Belo! Não dava nem pra respirar de tão cheio, mas valeu cada segundo cantando as antigas!" — Rodrigo "Digão" Souza, 33 anos |
A Conta que Fica: A Imortalidade da Arte
Quando as luzes se apagaram na madrugada, quem caminhou até a saída lavou a alma. A segunda-feira mostrou a melhor face do Rock in Rio: aquela que não se apoia apenas em métricas digitais, mas no impacto real que a música causa no corpo e na mente.
A gente riu com o sarcasmo do tempo vendo Elton John arrebentar ao piano aos 79 anos; chorou com a finitude poética de Gilberto Gil aos 84; se lavou no transe de Jon Batiste e cantou até perder a voz com Péricles e Belo. Sir Elton e Mestre Gil nos lembraram de uma verdade bonita: o corpo cansa e o tempo não perdoa, mas a arte feita com alma é imortal.
Nota do Dia: 10/10
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