PJ Morton entrega show encantador de R&B e gospel, mas é ofuscado por dia dominado pelo K-pop no Rock in Rio.
Tecladista do Maroon 5 faz a primeira de suas duas apresentações no festival com aula de musicalidade para público modesto; músico retorna neste sábado ao Palco Mundo com sua banda.
Juliana Russo | repórter cultural | Direto da Cidade do Rock, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Data de Publicação: sexta-feira, 11 de setembro de 2026 às 22:30.
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| PJ Morton se apresenta no Rock in Rio 2026 - Divulgação/ Portal Hora da Notícia. |
A tarde desta sexta-feira, 11 de setembro, reservou um dos momentos de maior sofisticação musical desta edição do Rock in Rio, ainda que para um público injustamente reduzido. O cantor, compositor, pianista e produtor americano PJ Morton subiu ao Palco Sunset para apresentar a turnê Saturday Night Sunday Morning, em sua primeira de duas aparições agendadas no festival carioca.
Neste sábado (12), o artista veste uma "outra pele": ele assume os teclados do Maroon 5, grupo que integra desde 2010, para se apresentar como uma das atrações principais do Palco Mundo. Em seu momento solo, porém, PJ teve a má sorte de ser escalado em um dia em que as atenções e o público jovem estavam completamente monopolizados pelas atrações de K-pop.
Apesar da plateia enxuta, quem optou por acompanhar o show presenciou uma performance impecável. Diferente do comportamento disperso visto em outros palcos, os poucos presentes engajaram de forma respeitosa e entusiasmada do início ao fim.
Do gospel ao soul: uma viagem pela carreira solo
Acompanhado de uma banda azeitada, PJ Morton abriu a apresentação com "Mutual" e emendou "My Peace" — faixa que traz oSample de "SpottieOttieDopalicious", do duo OutKast —, seguida por "Good Morning" e "Ready". Sem se abalar com o tamanho da plateia, o músico distribuiu sorrisos, arriscou um "obrigado" em português e se aproximou da grade nos raros momentos em que deixava o piano.
Demonstrando enorme carisma, ensinou o público a cantar o refrão de "Sticking to My Guns" e regeu um coro afinado em "Everything's Gonna Be Alright". O repertório de 13 músicas teve como espinha dorsal o aclamado álbum Gumbo (2017), trabalho em que o artista aborda sua recusa em se submeter aos rótulos engessados das grandes gravadoras, incluindo no set a confessional "Claustrophobic" e a romântica "First Began".
O show também passou por faixas como "Better Benediction", do disco Watch the Sun (2022), e "Say So", parceria original com JoJo. O encerramento veio em tom apoteótico com sua célebre versão de "How Deep Is Your Love", dos Bee Gees — releitura que lhe rendeu um de seus seis prêmios Grammy.
Talento gigante em dia trocado
Filho de pastor e criado no gospel, PJ Morton absorveu influências de nomes como Stevie Wonder, Donny Hathaway, Al Green e Marvin Gaye. Embora integre o Maroon 5 há 16 anos — tendo entrado para a banda após um teste tão impressionante que cancelou as audições dos demais candidatos —, seu trabalho solo reafirma um artista completo, independente e dono de uma assinatura única.
Ficou de fora do setlist a dançante "Be Like Water" (parceria com Stevie Wonder), cujo conceito prega deixar as coisas fluírem sem lutar contra o que não se pode mudar — uma lição que resumiu com precisão a postura do músico no Sunset. Sem poder lutar contra a programação que o colocou diante de um público adolescente focado em outros ritmos, PJ Morton deixou a música fluir com maestria.
Toda a sua bagagem e musicalidade indiscutível poderiam ter sido melhor aproveitadas pelo festival caso estivesse escalado em um dia com maior presença do público adulto. Ainda assim, para os privilegiados que estiveram presentes, a entrega foi irretocável.
Cotação da reportagem:
★ ★ ★ ★ ★ (10 / 10 - Impecável)
Nota: Mesmo diante de uma plateia modestíssima, PJ Morton ofereceu uma aula de soul, R&B e sensibilidade técnica, confirmando por que é um dos músicos mais respeitados de sua geração.
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