Entre Raios, Baguetes e Trapalhadas: Mbappé Iguala Klose sob o Dilúvio da Filadélfia.

Com direito a apagão iraquiano e duas horas de "chá de cadeira" climático, a França passeia nos EUA e carimba a vaga no mata-mata ampliado.

Paulo Henrique Gomes, repórter e editor-chefe de Esportes, direto do Lincoln Financial Field Stadium, na Filadélfia.
Data de Publicação: 23 de junho de 2026 às 00:50.
Coluna HDN Esportes >>> Conexão North American 2026 >>> França 3 x 0 Iraque
Partida entre França e Iraque teve que ser paralisada devido à forte chuva que atingiu a região da Filadélfia nesta segunda-feira (22). - Reprodução/ Cazé TV

DIRETO DO LINCOLN FINANCIAL FIELD, FILADÉLFIA — Olha, se alguém me dissesse que eu viria cobrir a Copa do Mundo nos Estados Unidos para passar duas horas abrigado no estômago de um estádio de futebol americano esperando a boa vontade de São Pedro, eu provavelmente teria mudado de profissão. Mas o futebol tem dessas coisas. Debaixo de um toró de proporções bíblicas e uma tempestade elétrica que faria o próprio Thor pedir arrego, eu assisti a mais um capítulo da história sendo escrito.

Ganha quem tem Mbappé, e perde — de forma tragicômica — quem resolve dar presentes de Natal em pleno mês de junho. A França bateu o Iraque por 3 a 0, garantiu a vaga no mata-mata — que agora ficou mais longo e começa na fase de dezesseis-avos de final (haja fôlego com 32 seleções classificadas!) — e o nosso camisa 10 predileto resolveu que a vice-liderança dos maiores artilheiros das Copas agora é dele (e de Miroslav Klose, claro). Ronaldo Fenômeno que nos desculpe, mas a tartaruga ninja está imparável.

O Monólogo e o "Claquete" Clínico

O roteiro do primeiro tempo parecia saído de um manual de sobrevivência. O Iraque tentava se fechar como podia, estacionando um verdadeiro ônibus na frente da área. Mas bastou uma falha na saída de bola asiática aos 13 minutos para a engrenagem francesa funcionar. Kylian Mbappé, que aparentemente joga de terno mesmo na chuva, limpou a jogada e mandou de canhota para o fundo da rede. Era o gol de número 15 dele em Copas.

Aí veio o drama iraquiano: aos 23, perderam sua referência, Aymen Hussein, lesionado. Se a situação já estava feia, ficou pior. Mas o verdadeiro adversário da França na primeira etapa não falava árabe; vinha do céu. Uma tempestade desabou sobre a Filadélfia. O árbitro apitou o fim do primeiro tempo e fomos todos — jornalistas, torcedores e jogadores — confinados nos corredores do estádio por rígidos protocolos de segurança norte-americanos contra raios.

Foram mais de duas horas de paralisação. Duas horas. Deu tempo de tomar café, analisar a tabela do Grupo I, discutir a vida e ver o gramado do Lincoln Financial Field virar uma piscina olímpica particular.

O "Inimigo Amigo" e a Consagração de Donatello

Quando o jogo finalmente recomeçou — com poças d'água que faziam a bola parar de forma completamente aleatória —, o Iraque resolveu que o jogo estava difícil demais e decidiu ajudar os franceses.

Aos oito minutos, o zagueiro Tahseen e o goleiro Basil resolveram trocar passes românticos dentro da área. O camisa 7 iraquiano, em um gesto de extrema generosidade (ou pura pane mental), tocou a bola diretamente nos pés de quem? Sim, de Mbappé. O craque teve apenas o trabalho de empurrar para o gol vazio. Um frango conceitual da defesa iraquiana. Era o 16º gol dele em Mundiais, igualando Klose e deixando Messi na alça de mira.

A partir daí, virou exibição de gala:

Mbappé ainda achou Olise, que cavou com categoria e carimbou a trave.

Dembelé, que não costuma perdoar quando a zaga adversária implora para levar gol, aproveitou mais uma assistência de Olise e mandou de direita para fechar o caixão: 3 a 0. O primeiro dele em Copas.

Como fica a mesa?

Com o apito final, a França chega aos 6 pontos no Grupo I, carimba o passaporte para os inéditos dezesseis-avos de final e assiste de camarote ao duelo entre Noruega e Senegal. No novo regulamento gigante, passar de fase é o de menos; o difícil vai ser o estoque de pernas até a final. Daqui da tribuna de imprensa, ensopado mas anestesiado pelo show do camisa 10 e pelas trapalhadas dignas de "Videocassetadas" da defesa do Iraque, eu me despeço. A França vai forte. E Mbappé está faminto.

Paulo Henrique Gomes, direto da Filadélfia, para a sua cobertura da Copa do Mundo.

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