O Gelo que Não Esfria a Guerra: Boicote Político e o "Capacete Proibido" Abalam Milão-Cortina.

Enquanto a Ucrânia anuncia boicote diplomático às Paralimpíadas, o caso do atleta do skeleton Vladyslav Heraskevych levanta um debate mundial sobre os limites da liberdade de expressão no esporte.

Carlos André, chefe de redação e CEO do Portal Hora da Notícia, direto de Base Oficial, em Itaguaí, RJ.
Publicação: quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 às 20:25.
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Boletim Olímpico, em sua segunda edição do 13º dia traz dois assuntos que marcam o 13º dia dos Jogos de 2026 - Reprodução/HDN Esportes

Fala, torcedor do Hora da Notícia. Hoje, o meu despacho aqui de Milão não é sobre recordes de tempo ou técnicas de curva, mas sobre as feridas abertas que o esporte, por mais que tente, não consegue curar. O clima nas vilas olímpicas de Milão e Cortina d’Ampezzo subiu de temperatura, e não foi por causa do sol.

Estamos diante de um nó górdio que mistura geopolítica, dor humanitária e as rígidas (e polêmicas) regras do Comitê Olímpico Internacional (COI). A Ucrânia elevou o tom, e o impacto dessa decisão vai ecoar muito além do encerramento destes Jogos.

O Boicote Paralímpico: Atletas na Pista, Autoridades Fora

O Ministro dos Esportes da Ucrânia, Matvii Bidnyi, soltou uma bomba nesta quarta-feira: as autoridades ucranianas boicotarão oficialmente os Jogos Paralímpicos de Milão-Cortina, que começam em 6 de março.

  • O Motivo: A decisão do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) de permitir que 10 atletas da Rússia e de Belarus compitam. Mesmo que sob bandeiras neutras, a presença deles é vista por Kiev como uma validação inaceitável.

  • Como vai funcionar: Os atletas ucranianos vão competir (eles não querem punir quem treinou a vida toda), mas não haverá um único representante do governo na Cerimônia de Abertura ou em qualquer tribuna de honra. É o isolamento diplomático em meio à festa esportiva.

O Drama de Heraskevych: O Capacete de 1 Milhão de Reais

Mas o caso que está dominando as conversas nos cafés de Cortina d’Ampezzo é o de Vladyslav Heraskevych. O atleta do skeleton foi banido da competição por um motivo que divide opiniões: ele usou um capacete estampado com os rostos de 24 atletas ucranianos mortos na guerra.

A Cronologia da Exclusão:

  • O Treino: Heraskevych treinou por dias em Cortina com o capacete. Ninguém disse nada.

  • O Veto: Na véspera da prova, o COI deu o aviso: "Tire o capacete ou não desce".

  • A Desclassificação: Ele manteve sua posição. O júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton alegou violação da Regra 50 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas.

  • O Recurso: O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) negou o pedido de Heraskevych horas antes das finais.

  • O Gesto do Shakhtar: Aqui entra o personagem Rinat Akhmetov. O dono do Shakhtar Donetsk não deixou o atleta desamparado. Ele doou US$ 200.000 (cerca de R$ 1 milhão) a Heraskevych — o exato valor que o governo paga por uma medalha de ouro. "Ele volta como um verdadeiro vencedor por lutar pela memória daqueles que deram a vida," afirmou Akhmetov.

Análise Paulo Henrique: O Esporte pode ser "Apolítico"?

Aqui no Hora da Notícia, a gente questiona: até onde vai a neutralidade do esporte?

  • 1. A Hipocrisia das Regras: O COI defende a neutralidade para "unir o mundo", mas para um atleta que perdeu amigos e colegas de treino para mísseis, pedir que ele "separe o esporte da política" soa como um insulto. O capacete de Heraskevych não era uma propaganda partidária, era um memorial.

  • 2. O Precedente Perigoso: Ao banir Heraskevych, as federações internacionais tentam evitar que o pódio vire um palanque. Mas, ao fazer isso, criam mártires. Heraskevych hoje é maior na Ucrânia do que se tivesse ganhado o bronze. Ele se tornou o símbolo da resistência cultural.

  • 3. O Peso Financeiro: A entrada do Shakhtar Donetsk no circuito olímpico mostra como o capital privado ucraniano está sendo usado para sustentar o moral nacional. É o "Soft Power" em sua forma mais pura e resiliente.

O Que Esperar Agora?

A ausência das autoridades ucranianas nas Paralimpíadas vai gerar um vazio desconfortável nas tribunas de Milão. Politicamente, a Ucrânia está forçando o IPC e o COI a escolherem um lado, enquanto as entidades tentam equilibrar pratos chineses em cima de uma corda bamba.

Enquanto isso, Vladyslav Heraskevych retorna para casa sem medalha, mas com o bolso cheio e o nome gravado na história — não pelos segundos que desceu no gelo, mas pelo peso que carregou na cabeça.

O que você acha, torcedor? O esporte deve ser um santuário livre de política ou é impossível ignorar a realidade do mundo quando se entra na pista?

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