HDN na Itália: quando a neve natural vira exceção em Milão-Cortina
Aquecimento global transforma o cenário olímpico, obriga o uso massivo de neve artificial e levanta um alerta sobre o futuro dos Jogos de Inverno.
Carlos André | CEO e editor-chefe | Portal Hora da Notícia RJ | Itaguaí, Rio de Janeiro | 02/02/2026 às 23:25.
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| O Portal Hora da Notícia inicia a sua cobertura especial dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão/ Cortina 2026. |
O que acontece quando o principal elemento de um espetáculo esportivo começa a desaparecer? Nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, a resposta está estampada nas montanhas do Norte da Itália: a neve natural já não é suficiente.
A edição que começa na próxima sexta-feira marca um divisor de águas na história olímpica. Cerca de 80% da neve utilizada nas competições será artificial, produzida por máquinas, em um esforço logístico e ambiental sem precedentes. No total, serão 2,5 milhões de metros cúbicos de neve fabricada, espalhados principalmente por Bormio, palco do esqui alpino, e Livigno, onde acontecem as provas de esqui freestyle e snowboard.
❄️ Menos neve, mais máquinas
Um consórcio de pesquisadores europeus analisou a incidência de neve nos Alpes italianos ao longo dos últimos 100 anos. O resultado é alarmante: 34% menos neve em um século. Na prática, isso significa que não é mais possível sediar os Jogos de Inverno apenas com neve natural.
Para garantir a realização das provas, os organizadores recorreram à produção artificial em larga escala. O custo ambiental é alto:
- 946 milhões de litros de água utilizados
- Volume equivalente a 380 piscinas olímpicas
- Consumo intenso de energia e impacto direto nos ecossistemas locais
Em Cortina d’Ampezzo, que recebeu os Jogos de Inverno de 1956 inteiramente com neve natural, a comparação é inevitável. Setenta anos depois, a paisagem é outra. Para montar uma pista olímpica segura, hoje é necessária uma base mínima de 35 centímetros de neve compactada — algo cada vez mais raro de ocorrer de forma natural.
🌍 O futuro em risco
O problema vai além da Itália. Um estudo liderado por cientistas canadenses aponta que, das 93 montanhas que já receberam provas olímpicas desde 1924, apenas 52 teriam condições climáticas adequadas em 2050. Ou seja, o mapa dos Jogos de Inverno está encolhendo.
Segundo o meteorologista Carlos Nobre, o fenômeno é global:
“Quando a temperatura do ar sobe, você forma chuva, não neve. Além disso, o planeta vive eventos extremos de seca, o que reduz ainda mais a produção de neve.”
A cena de canhões disparando neve artificial em ritmo acelerado já se tornou parte do cotidiano das competições. Uma adaptação forçada a uma nova realidade climática.
🏂 Atletas sentem na pele
O impacto é visível para quem vive o esporte diariamente. Pat Burgener, destaque do snowboard halfpipe e representante do Brasil após trocar a bandeira suíça, admite que o cenário mudou drasticamente:
“Todo ano fica mais quente e temos menos neve nas montanhas. Ainda conseguimos competir por causa das máquinas, mas na montanha natural está cada vez mais difícil.”
A redução da neve também encurta calendários, compromete o desempenho e torna pistas mais perigosas. Rampas ficam escorregadias, o esqui perde velocidade e competições são canceladas com frequência.
Quem viveu isso de perto foi Jaqueline Mourão, veterana brasileira com cinco participações olímpicas:
“É um esporte lindo, mas depende totalmente da neve. Já vi várias provas serem canceladas. A mudança climática é muito real pra gente.”
🧊 Nem o gelo escapa
Nem mesmo os esportes disputados em ambientes controlados estão imunes. No bobsled, modalidade conhecida como a “Fórmula 1” das Olimpíadas de Inverno, o calor já causou prejuízos diretos. Pistas que antes eram abertas hoje precisam ser cobertas — e ainda assim não há garantia.
No Mundial do ano passado, nos Estados Unidos, o gelo derreteu a ponto de o trenó tocar o concreto, invalidando descidas inteiras.
“A lâmina do trenó passou no concreto. Aquela descida foi anulada para todo mundo. Isso afeta diretamente a competição”, explicou Emilio Strapasson, chefe da missão brasileira em Milão-Cortina.
♻️ O alerta olímpico
O Comitê Olímpico Internacional (COI) reconhece o problema e afirma adotar metas de sustentabilidade e redução de emissões. Ainda assim, Milão-Cortina 2026 escancara uma pergunta inevitável:
até quando será possível manter os Jogos Olímpicos de Inverno em um planeta cada vez mais quente?
Entre montanhas que perdem sua neve, pistas artificiais e bilhões de litros de água transformados em gelo temporário, a Olimpíada italiana se torna mais do que uma competição esportiva. É um alerta global, transmitido em alta velocidade, direto das encostas dos Alpes.
📍 HDN na Itália seguirá acompanhando de perto os Jogos de Inverno de 2026 — dentro e fora das pistas, onde a disputa mais difícil já está em andamento: a luta contra o tempo e o aquecimento global.
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